terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O mistério oferecido em Maria

A liturgia da Igreja é muita rica em apresentar, ao longo do ano, festas e solenidades que nos ajudam a entrar sempre mais e mais no mistério de Deus que é amor e habita entre nós. E é justamente este mistério que somos convidados a vivenciar ao celebrar a solenidade da “Mãe de Deus”.

Os Pais e Mães da Igreja (século III até o inicio da Idade Média), pessoas estudiosas, de testemunho de vida e de profunda oração, foram atentos e sensíveis ao mistério de Cristo, desejosos de adentrar e viver sempre mais este mistério, que é um chamado de Deus a uma relação sempre mais profunda com Ele. Esta atenção ao mistério levou-os a compreender melhor a própria fé professada em Jesus Cristo, acolhendo Maria, a Mãe do Senhor (Lucas 1,43), como Mãe de Deus (Éfeso 431), contemplando-a como ícone do Mistério. Ou seja, nela contemplaram o mistério de Deus ser verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem.

É no ventre, na carne de Maria que Jesus recebe a sua humanidade. É nesta carne que Ele entra no tempo e na história, assumindo e participando da natureza e condição humana, sendo verdadeiramente um homem nascido de uma mulher (Gl 4,4). Por isso, a experiência bíblica nos apresenta Maria como a Mãe do Senhor. (Lucas 1, 47), isto é, como uma mulher que traz em si traços de uma maternidade de nível físico, psicológico e espiritual, como ternura, cuidado, atenção e solicitude (Mt 2,11; Mt 1,18-25; Lc 2,7.12.16; Lc 2,52 e 41-50; Mc 3,20-21 e 31-35) vivida profundamente com o seu filho.

Jesus que é Filho de Maria é também Filho de Deus porque foi gerado desde toda a eternidade no seio do Pai. (Jo 13, 3). A Tradição da Igreja nos transmitiu essa fé pela oração do credo: “[...] Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. [...]. Segundo Bruno Forte “Maria é Mãe de Deus enquanto seu Filho foi gerado desde a eternidade no seio do Pai e, por livre e gratuita escolha de amor salvífico, é gerado no tempo pelo seio virginal na plena humanidade assumida por ele (FORTE, 1991, p. 187). Assim, a partir da experiência bíblica, a Tradição nos apresenta Maria como a Mãe de Deus.

A relação do encontro entre Deus e o homem, que é relação de amor, tecida em Maria, nos aproxima do mistério de Jesus Cristo - verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem -, nos fazendo crer e sentir com a inteligência e com o coração sua Presença divina em nós.

Celebrar a solenidade da “Mãe de Deus” é acolher e gerar em nós a Palavra de Deus expressando a nossa maternidade para e com os outros.
Em Maria nos é oferecido um mistério para viver e contemplar: Jesus que é Filho de Deus é também Filho de Maria, gente como nós! Que Maria nos ajude a acolher e a gerar com amor, criatividade e responsabilidade a Palavra da Vida: Jesus!

Rosana de Jesus Coelho
Missionária da Imaculada-Padre Kolbe


Fontes:
 

- Bíblia de Jerusalém, 2002.
- FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do mistério: ensaio de mariologia simbólica-narrativa. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1991 (Coleção Teologia sistemática).
- MARITANO M. Alcune linee portanti della mariologia patristica. Tkeotokos-Ricerche interdisciplinari di Mariologia. Roma, VXI, n.1, p. 3-19, 2008.
- http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/fe_crista_ortodoxa/ o_credo_niceno_constantinopolitano.html
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http://vidapastoral.com.br/a-igreja-no-periodo-patristico.html