sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sede santos!

A verdadeira devoção a Nossa Senhora consiste em fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus é que busquemos a santidade. Portanto, a finalidade da devoção a Nossa Senhora é que tornemos santos como Ela é a plenitude da santidade: “Ave, cheia de graça”, e como seu Filho é fonte da santidade.

“Na linguagem bíblica, ‘graça’ significa dom especial, que segundo o Novo Testamento tem a sua fonte na vida trinitária do próprio Deus, de Deus que é amor. Fruto desse amor é a ‘eleição’, de que fala a Carta dos Efésios. Da parte de Deus, essa eleição é a eterna na vontade de salvar o homem mediante a participação de sua própria vida em Cristo: é a salvação na participação á vida sobrenatural. O efeito desse dom terno, dessa graça da eleição do homem por parte de Deus é um ‘germe de santidade’ ou uma fonte que jorra na alma como dom do próprio Deus, que através da graça vivifica e santifica os eleitos.” (Redemptoris Mater, n 8)

Se a devoção a Maria não nos leva a amar a santidade, não é autêntica.

A santidade, portanto, é a nossa vocação. É a vocação não somente dos religiosos, dos sacerdotes ou dos consagrados, mas de todos os leigos. De fato, foi a todos que Jesus disse: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.” (Mt 5,48) Deus entendia todos ao dizer na criação: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” (Gn 1,26) E São Paulo relembra: “A vontade de Deus é que vivam consagrados a ele.” (1Ts 4,3) E a Igreja repete isso amplamente no capitulo V da Lumen Gentium.

Se essa é a nossa vocação, é de se perguntar por que se fala assim tão pouco da santidade. Parece que exigimos pouco dos cristãos e acabamos nos tornando interpretes de uma limitação, de um achatamento. Basta que alguém não mate, não se prostitua, não roube abertamente, não dê grandes escândalos, para que, inclusive sacerdotes, digam: “É o que dá pra fazer”...

A santidade é bem diferente. Não é um “não fazer”, e sim um compromisso concreto, uma subida para conquistar a montanha. É se perguntar sempre “O que posso fazer mais?” Como São João diz no Apocalipse: “O santo continue a si santificar.” (Ap 22,11)

A santidade não consiste em fazer muitas orações, jejuns, sacrifícios e romarias, ter visões e assim por diante, mas em fazer a vontade de Deus. Portanto, perguntemo-nos qual é e como se expressa tal vontade.

Ela é, antes de tudo, fazer bem o nosso dever cotidiano. “É uma santidade mínima...”, poderá alguém objetar. Eu, porem, respondo: “tentei!” Você, jovem, tente fazer o bem de manhã até de noite, respeitando os outros, respeitando a sua namorada e a si mesmo... Você, pessoa consagrada, tente viver plenamente a vida de obediência, em comunhão com os superiores; viver a pobreza com desapego interior, viver a virgindade com alegria e doação constante. Você, mamãe, tente estabelecer diálogo com seus filhos, estar “presente” desde que são pequenos até quando ficarem grandes e você não puder fazer outra coisa senão rezar por eles.

É o exercício diário que constrói a santidade. É o amor extraordinário nas coisas ordinárias. É inútil ficar esperando as “grandes oportunidades”: se não há empenho em cada momento, num passo após o outro, não se chega á santidade, que é a plenitude do amor de Deus em nós.

Todos os momentos da vida são “adequados” para que decidamos começar a nossa caminhada. São Maximiliano Kolbe dizia: “Se alguém já estiver com um pé no inferno, poderá assim mesmo se tornar um grande santo, basta que comece a se corrigir, comece a confiar ilimitadamente a Imaculada e comece a ama-la de todo o coração.”

Maria é santa por excelência. Isto é, Ela é a criatura que mais se assemelha àquele que é santidade por essência.

Desde a concepção participou dessa santidade, porque Deus, em previsão dos méritos de Cristo, a criou sem pecado (cf. Redemptoris Mater, n 10). Entretanto, Ela mesma foi aumentando e conquistando sempre mais e diariamente a santidade, respondendo sempre “sim” ao Senhor. Como um riacho que, descendo do alto, recebe em seu caminhar a contribuição de outros riachos e se torna um rio, até chegar ao mar, assim Maria, dizendo o seu “sim”, dia após dia, acrescentou santidade à santidade, aproximando-se sempre mais de Deus.

Nós não podemos alcançar o grau de santidade de Maria, mas podemos seguir seu exemplo em nossa caminhada, com fadiga, sem duvida, mas com alegria e perseverança, peregrinos como Ela é peregrina e como é peregrina a Igreja que também é santa e busca a santidade (cf. Redemptoris Mater, n 6).

Qual é, porém, o segredo para sermos santos?

Jesus nos comparou a uma vinha cujo agricultor é o Pai (cf. Jo 15, 1-11). A videira é Jesus e nós somos os ramos. Se de fato estamos unidos à videira, também nós somos santos, porque somos a própria emanação da videira, de Jesus, que é santo. Como brotos, nascemos da sua paixão, da sua morte e da sua ressurreição.

Entretanto, podemos permanecer unidos à videira somente através do amor. De fato, somente o amor permite à “seiva” vivificar os ramos e assim produzir fruto.

Ninguém mais do que Maria está unida à videira. Ela, que acolheu plenamente a vontade do agricultor e gerou não somente a videira mais também todos os ramos, isto é, todos nós. Maria, através de sua disponibilidade, fez com que o amor triunfasse. Permitiu que a graça de Deus a preenchesse totalmente (cf. Redemptoris Mater, n 9). E nem mesmo por um instante pensou em se separar da videira...

Nós, ás vezes, somos tentados a fazer isso; quando, por exemplo, queremos ou pensamos fazer as coisas sozinhos. E essa tendência, que pode acabar se transformando em mentalidade, é como um verme roedor que penetra cada vez mais, e faz com que comecemos a evitar a seiva que sobe da videira. Então, aos poucos, o nosso ramo seca e, quando o agricultor vier, o cortará, pois não serve mais para nada, ou pior, é empecilho para os outros ao impedir que a seiva corra... E aquele ramo que queria se tornar autossuficiente, que não queria estar “ligado” a ninguém, acabará por terra pisado e queimado.

Não permitamos que nenhum “verme roedor” entre em nós e nos separe da videira. A santidade de Maria, assim com a nossa, consiste exatamente no fato de ficar unida ao seu Deus até o fim, para sempre.

Padre Faccenda
Fundador do Instituto

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Devemos conhecer a maravilhosa caridade da ciência de Cristo

A mim me parece que o grande desejo de nosso Senhor, de que se tribute honra especial a Seu Sagrado Coração, tem por finalidade renovar em nós os frutos da redenção. Pois o Sagrado Coração é fonte inexaurível; que somente quer difundir-Se pelos corações humildes, a fim de que estejam livres e prontos a viver sua vida em conformidade com seu beneplácito.

Deste divino Coração correm sem parar três rios: o primeiro é de misericórdia pelos pecadores, derramando neles o espírito de contrição e de penitência. O segundo é de caridade, para auxílio de todos os sofredores, em particular dos que aspiram à perfeição, para que encontrem os meios de superar as dificuldades. Do terceiro, enfim, manam o amor e a luz para Seus amigos perfeitos, que Ele deseja unir à Sua ciência e à participação de Seus preceitos, para que, cada um a seu modo, se dedique totalmente à expansão de Sua glória.

Este Coração divino é oceano de todos os bens. Nele precisam os pobres mergulhar todas as suas necessidades. É oceano de alegria, onde temos de mergulhar todas as nossas tristezas. É abismo de humildade contra nossa loucura, abismo de misericórdia para os miseráveis, abismo de amor para as nossas indigências.

Tendes, por isto, de unir-vos ao Coração de nosso Senhor Jesus Cristo, no princípio da vida nova, para vos preparardes bem; no fim, para consumardes. Vossa oração é vazia? Então, basta que ofereçais a Deus as preces que o Salvador eleva por nós no sacramento do altar, entregando Seu fervor em reparação de vossa tibieza. Sempre que ides fazer algo, rezai assim: "Meu Deus, faço ou suporto isto no Coração de Teu Filho e, conforme a Seus santos desígnios, ofereço-Te em reparação de tudo quanto há de falho ou de imperfeito em minhas obras". E deste modo, em todas as circunstâncias. E em tudo que vos acontecer de penoso, aflitivo ou injurioso, dizei a vós mesmos: "Recebe o que o Sagrado Coração de Jesus Cristo te envia a fim de unir-te a Ele".

Acima de tudo, porém, guardai a paz do coração que supera todos os tesouros. Para guardá-la, nada de melhor que renunciar à própria vontade e colocar a vontade do divino Coração em lugar da nossa, de modo que Ela realize em nosso nome o que redunda em Sua glória. E nós, felizes, nos submetamos a Ele, com absoluta confiança.

Das Cartas de Santa Margarida Maria Alacoque
(Séc. XVll)


Fonte: Liturgia das horas

 
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

É o Senhor que sustenta a minha vida!

Missionária Sara, diretora local da comunidade de São Bernardo - SP.
15 de outubro de 2014: 14 anos de profissão simples!
16 de outubro de 2014: 11 anos de Brasil!


Senhor Jesus... OBRIGADA pela Tua fidelidade e pelo Teu Amor constante e paciente para comigo! Hoje sinto dentro do meu coração uma grande paz, porque olhando para trás, vejo a Tua Presença que me acompanhou ao longo desses anos... nos momentos mais difíceis e naqueles de alegria.

OBRIGADA Senhor: esta é a palavra que encontro dentro de mim para expressar a minha gratidão.

OBRIGADA por ter olhado para mim com amor, e por ter-me chamado a Te seguir.


OBRIGADA por acreditar em mim, e ter-me confiado uma missão tão grande e tão linda. Por ter-me ensinado o valor profundo e belo da vida, e de cada momento, das pequenas coisas e da simplicidade.

OBRIGADA por ter-me chamado aqui no Brasil, onde aprendi o valor e a riqueza de uma realidade diferente na qual o meu coração se dilatou e aprendeu a amar.

OBRIGADA Senhor, pela Tua FIDELIDADE ao longo desses anos... ela me sustentou nos momentos mais difíceis, nos momentos de crescimento e de conquista de uma maior liberdade.

OBRIGADA Senhor, porque aprendi a viver a solidão não como um vazio, mas como uma oportunidade para encontrar a Tua Presença misteriosa que quer me encontrar... e que me ensinou a relacionar-me com os meus irmãos e irmãs.

OBRIGADA por todas as minhas irmãs e por todas as pessoas que ao longo desses anos partilharam comigo o dom da fraternidade, da amizade e do carisma mariano-missionário-kolbiano.

Senhor, Tu me pedes de lançar-me novamente e renovar concretamente o chamado que um dia me fizeste. Sinto medo, mas ao mesmo tempo uma grande liberdade, que sempre experimentei todas as vezes que me abandonei ao Teu Amor que me chama.

Tenho certeza que o nosso Padre Faccenda me acompanha lá do céu, e hoje se alegra comigo pela Tua fidelidade e por tanta graça recebida.

Que a Tua mãe Imaculada me acompanhe, Senhor, e que na certeza da Tua Presença constante eu continue a doar a minha vida aonde Tu me chamas! Isto é aquilo que eu quero! 

Sara Caneva
Missionária da Imaculada-Padre Kolbe
São Bernardo - SP

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Padre Kolbe, o missionário “em saída”. Uma vida em saída

No centro da nossa reflexão para este outubro missionário está a Mensagem para o dia mundial das missões 2014 do Papa Francisco. Veremos juntos algumas passagens mais evidentes. O Papa nos convida a “sair ao encontro da humanidade... ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo... A Igreja é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída»... Quero propor um ícone bíblico que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).

O evangelista conta que o Senhor enviou os 72 discípulos, de dois em dois, às cidades e vilas, para anunciar que o Reino de Deus estava próximo e preparando as pessoas para o encontro com Jesus. Depois de ter cumprido esta missão de anúncio, os discípulos voltaram cheios de alegria: a alegria é um tema dominante nesta primeira e inesquecível experiência missionária. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus...” (E.G., 1)

Padre Kolbe é um missionário ardente porque é um homem apaixonado por Deus e pelo homem. Considera o apostolado não uma questão de tática organizativa, mas reflexo da riqueza de graça de um coração conquistado por Deus mediante a oferta de si à Imaculada. Ele dirá que “o apostolado é uma obra sublime, muito sublime: é colaboração – se se é lícito expressar-se assim – com o próprio Deus na ação de aperfeiçoar, santificar e fazer os homens felizes” (SK 1071). Com este objetivo dá início à Milícia da Imaculada, Associação eclesial: todos podem fazer parte da mesma: religiosos e leigos.

Assim como a Igreja, a Milícia da Imaculada também nasceu “em saída”.  Chama-se “Milícia” porque aqueles que se consagram à Imaculada... desejam conquistar, o mais rápido possível, o mundo inteiro e cada alma em particular sem nenhuma exceção.

Padre Kolbe é o missionário sempre “em saída” desde os tempos de formação. Há uma saúde frágil, tem tuberculose. Não consegue ficar tranquilo no convento, sente arder a paixão pelo Reino de Deus e quer conquistar o mundo inteiro à Imaculada. Em 1925, em um artigo da sua revista, define o perfil do missionário: “Ele não limita a sua capacidade de amar somente a si mesmo, à sua família, aos parentes, aos amigos, aos concidadãos, mas abraça com o seu coração o mundo inteiro, uma vez que todos foram redimidos pelo sangue de Jesus, sem nenhuma exceção, todos são nossos irmãos... A felicidade de toda a humanidade em Deus através da Imaculada: eis o nosso sonho” (SK 1088).

É o homem do êxodo. Depois de apenas três anos da fundação de Niepokalanòw ele parte em missão porque, como ele mesmo dirá: “o meu olhar é continuamente atraído por novos horizontes” (SK 503) e com quatro frades se aventura em direção ao Oriente. O impulso missionário de Padre Kolbe é inacreditável: os seus confins são o mundo inteiro. O pobre dos pobres deu início à globalização dos pobres. Naturalmente Padre Kolbe não conhece o termo “globalização”, mas de fato o concretiza no sentido que quer chegar a todos para levar a boa notícia.

É atraído por vocações “cada vez mais”, “cada vez melhor” para que a alegria do Evangelho chegue até os confins da terra. A este respeito ele tem uma expressão belíssima: “Não amanhã, nem mesmo esta noite, mas agora. Não pouco, mas tudo. Não somente uma região do mundo, mas o mundo inteiro” porque “quando o fogo do amor se acende não fica limitado ao coração, mas se alastra para fora, incendeia, devora, absorve outros corações, para conduzi-los a Deus por meio da Imaculada” (SK 1325) e “isso o mais rápido possível, o mais rápido possível”.

“O mais rápido possível” é uma expressão que aparece frequentemente no vocabulário missionário de Padre Kolbe. “O mais rápido” e “em saída” para estar dentro dos problemas das pessoas. Para anunciar um Deus apaixonado pelo homem.

Em caminho, sem descanso, até o fim de sua vida quando sai da fila para oferecer a sua vida no lugar de um pai de família. Em saída em direção ao bunker da morte para acompanhar os seus companheiros para morrer com dignidade, cantando os louvores de Deus, rezando e suplicando o perdão para os seus carrascos. Em saída para entrar e imergir-se nos abismos do inferno de Auschwitz. Nos abismos do ódio.

“Morreu um homem e se salvou a humanidade” (João Paulo II em Auschwitz, junho de 1979): exultemos por este testemunho de amor que fez resplandecer a força do Evangelho até mesmo na trevas do mal. Cantemos com Maria o nosso Magnificat em levar a alegria do Evangelho. Nenhuma periferia seja privada da luz. Que todos entrem nesta torrente de alegria!
Angela Sposito
Missionária da Imaculada - Padre Kolbe
Polônia


Todo o dia 14, as Missionárias da Polônia estarão depositando na cela de Padre Kolbe as intenções enviadas para o e-mail: celakolbe@kolbemission.org

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Olhar para o passado, construir o presente, sonhar com o futuro

Caríssimas Missionárias e Voluntários,
é meu desejo chegar até cada um de vocês através de uma mensagem de alegria, aquela alegria – como nos lembra papa Francisco – que brota no coração de quem encontrou Cristo e fez experiência do seu amor (cf. Papa Francisco, Evangelii gaudium, 1).
É a alegria que deve nos acompanhar neste ano jubilar que estamos começando: o 60° aniversário do nascimento do nosso Instituto em 11 de outubro de 1954.

60 anos... guiados por um sonho

É o tema/slogan que dará ritmo e vida ao caminho dos próximos meses: de 11 de outubro de 2014 a 11 de outubro de 2015, e nos fará entrar no coração deste aniversário que vem renovar-nos na nossa identidade e missão na Igreja e no mundo.

60 anos de vida

Rostos, histórias, eventos, encontros, projetos e esperanças… uma longa história para ser contada e partilhada, que cada um contribuiu para escrever e torná-la mais bela, mais verdadeira, mais fiel à vocação recebida.

60 anos de paixão missionária

Em caminho através das estradas dos homens para viver o estupor da semente que lançada no campo floresce e dá fruto; para saborear a alegria do carisma mariano-missionário encarnado na realidade de povos e culturas diversas.

60 anos de desafios

Fieis a Deus num mundo em contínua transformação que muitas vezes mina as nossas certezas e nos provoca a buscar novas respostas, a trilhar novos caminhos.

60 anos com Maria

O canto dela torna-se também o nosso e com ela dizemos: Magnificat! Obrigada, Senhor, por cada dia de luz e por cada momento de sofrimento; por cada pequena alegria e por cada dor. Obrigada, por todas as vezes em que o amor mostrou o seu rosto e fez prodígios. De geração em geração também nós cantaremos a fidelidade e a misericórdia de Deus que se inclina sobre os pequenos e os pobres. 

Entre passado, presente e futuro


Juntos, guiados pelo Espírito… queremos fazer três passos nos quais passado, presente e futuro se entrelaçam, se evocam, se perseguem, para continuar a escrever, conosco e através de nós,  páginas de vida e de esperança.

Olhar para o passado

A celebração de um aniversário, como acontece em todos os momentos celebrativos que acompanham a existência humana, faz-nos olhar para o passado. É lindo reler as páginas da nossa vida, o segredo porém é não deixar que a saudade predomine e com a saudade chorar pelas coisas e tempos que não voltarão mais.
Olhemos para trás, mas com sentimentos de gratidão e de louvor. Percorramos de novo as etapas do nosso caminho, voltando às origens, na fonte do dom que Deus nos confiou através do nosso fundador, padre Luigi, com a atitude do «mercador que busca pérolas preciosas; quando encontra uma pérola de grande valor, vai, vende todos os seus bens e a compra» (Mt 13,45-46). Redescubramos a preciosidade da pérola que nos foi confiada: o carisma mariano-missionário e com ele o chamado para sermos no mundo fermento de vida nova e evangélica.
O passado é motivo de gratidão para com Deus, para com Padre Luigi, para com as irmãs que em primeiro lugar se colocaram a caminho, para com todos aqueles que ao longo dos anos entraram e fazem parte da nossa Família. Sobre este terreno sólido e fecundo podemos continuar a construir o nosso presente e a sonhar com o nosso futuro.
   
•    O 60° aniversário do Instituto, na sua fase conclusiva, coincidirá com os dez anos da morte do padre (2005 – 2015). A homenagem mais bela que podemos fazer para o nosso fundador é retomar nas mãos os seus escritos para manter vivo o espírito e caminhar no sulco da herança que nos deixou como dom.

Construir o presente

Cada um de nós, de modos e tempos diversos, pode sentir-se protagonista desses 60 anos de história. A um certo ponto da nossa vida – usando uma imagem muito amada pelo padre Luigi – subimos no trem do Instituto (OVS, IX, 37-40; Solo l’amore crea, 30-33), tomamos o nosso lugar e fizemos nosso o seu percurso.

O 60° aniversário  é ocasião para renovar e remotivar a nossa pertença ao Instituto e sentir-nos responsáveis da sua vida e da sua missão.
É por isso que convido-vos para dar a este ano um particular tom vocacional. Uma escolha amadurecida também pela coincidência do Ano da Vida consagrada que Papa Francisco decretou para o ano de 2015, convidando todos os consagrados a “gritar” para o mundo com força e com alegria a santidade e a vitalidade que estão presentes na vida consagrada.

Muitas vezes o padre falou da vocação. Nos disse de amar as vocações, de rezar pelas vocações, de trabalhar pelas vocações. Entre os seus muitos escritos cito um que coloca evidencia sobre o amor, o motor que move cada coisa.
«Ama apaixonadamente as vocações missionárias.
Eu disse “apaixonadamente” porque Jesus amou com paixão cada homem, cada pecador e cada fiel seguidor dele.
Ama as vocações… ama-as rezando; ama-as oferecendo; ama-as propondo; ama-as testemunhando; ama-as doando tudo ou parte de ti mesmo; ama-as ajudando as missões do teu Instituto; ama-as com aquele profundo sofrimento que enfrentou Jesus no jardim do Getsemani e depois, ainda mais intensamente, na cruz» (OVS, IX, 51-52).

Deixemos que esta paixão capture o coração de cada missionária e de cada voluntário.

•    Cuidemos e guardemos como um tesouro precioso a vocação recebida, na fidelidade cotidiana, na comunhão fraterna, no impulso da missão.
•    Rezemos para interceder junto de Deus o dom de novas vocações para o Instituto. Redescubramos e valorizemos, neste sentido, o espírito de oferta e de sacrifício (cf. OVS, IV, 17-18), coloquemos sinais concretos, façamos algumas renúncias, segundo aquilo que o Espírito sugere para cada um e segundo as próprias possibilidades.
•    Colocamos em prática a criatividade que nasce do amor e procuremos ocasiões e formas para partilhar a beleza da nossa vocação e a beleza do carisma começando pelo testemunho alegre da vida.

Sonhar com o futuro

Em outras ocasiões tive a possibilidade de lembrar esta expressão do bispo brasileiro Helder Camara: «Se alguém sonha sozinho, o seu sonho permanece um sonho; se o sonho é sonhado junto com outros, este já é o começo da realidade».
Parece-me importante redescobrir a alegria e o entusiasmo de sonhar juntos, de olhar para o futuro com esperança e confiança, de continuar a deixar-nos guiar pelo Espírito que sopra onde quer e quando quer, inexpugnável e imprevisível.
Ser dóceis ao Espírito, como Maria, significa oferecer-lhe uma casa, uma possibilidade.

•    Perguntemo-nos: quais horizontes abre hoje diante de nós Aquele que é força de amor e de comunhão, fogo que inflama os corações, vento que sacode os nossos medos?
Quais são as periferias humanas, existenciais, espirituais que Ele nos conduz?

* * *

Olhar para o passado, construir o presente, sonhar com o futuro.
E tudo isso para que o aniversário de fundação do Instituto não seja uma celebração com a finalidade em si mesma. Parece-me que sejam particularmente significativas as palavras que o padre nos dirigia em ocasião de um outro aniversário.
«Este dia tenha a sua importância: é o vosso dia. Se existe a raiz, ótimo. Cultivem a raiz, louvem aquela raiz, amem a raiz, porém aquela raiz um dia pode morrer... Mas o tronco que deve continuar e os brotos que devem nascer são vocês. Devem nascer e devem crescer de vocês não somente simples “raminhos”, mas ramos muito grandes sobre os quais possam se apoiar os homens necessitados; porque o homem tem cada vez mais necessidade e este ardor deve crescer cada vez mais» (OVS, IX, 165-166).

Os brotos somos nós e destes  brotos devem continuar a crescer ramos cada vez mais fortes e robustos, bem ligados no tronco e na raiz. Este é o meu desejo para cada um de vocês.

* * *

Vivamos este ano em comunhão com as missionárias e os voluntários falecidos e com o padre, para que do céu nos guie e nos encoraje: o trem do Instituto retome com força o seu caminho, se enriqueça de novos vagões e acolha numerosos passageiros com os quais compartilhe a beleza do carisma.

Um ano de alegria, de festa, de vida:

Seja este o 60° aniversário do Instituto!

Giovanna Venturi
Diretora Geral

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Estava sua mãe junto à cruz

O martírio da Virgem é mencionado tanto na profecia de Simeão quanto no relato da paixão do Senhor. Este foi posto, diz o santo ancião sobre o menino, como um sinal de contradição, e a Maria: e uma espada traspassará tua alma (cf. Lc 2,34-35).

Verdadeiramente, ó santa Mãe, uma espada traspassou tua alma. Aliás, somente traspassando-a, penetraria na carne do Filho. De fato, visto que o teu Jesus – de todos certamente, mas especialmente teu – a lança cruel, abrindo-lhe o lado sem poupar um morto, não atingiu a alma dele, mas ela traspassou a tua alma. A alma dele já ali não estava, a tua, porém, não podia ser arrancada dali. Por isto a violência da dor penetrou em tua alma e nós te proclamamos, com justiça, mais do que mártir, porque a compaixão ultrapassou a dor da paixão corporal.

E pior que a espada, traspassando a alma, não foi aquela palavra que atingiu até a divisão entre a alma e o espírito: Mulher, eis aí teu filho? (Jo 19,26). Oh! que troca incrível! João, Mãe, te é entregue em vez de Jesus, o servo em lugar do Senhor, o discípulo pelo Mestre, o filho de Zebedeu pelo Filho de Deus, o puro homem, em vez do Deus verdadeiro. Como ouvir isto deixaria de traspassar tua alma tão afetuosa, se até a sua lembrança nos corta os corações, tão de pedra, tão de ferro?

Não vos admireis, irmãos, que se diga ter Maria sido mártir na alma. Poderia espantar- se quem não se recordasse do que Paulo afirmou que entre os maiores crimes dos gentios estava o de serem sem afeição. Muito longe do coração de Maria tudo isto; esteja também longe de seus servos.

Talvez haja quem pergunte: “Mas não sabia ela de antemão que iria ele morrer?” Sem dúvida alguma. “E não esperava que logo ressuscitaria?” Com toda a confiança. “E mesmo assim sofreu com o Crucificado?” Com toda a veemência. Aliás, tu quem és ou donde tua sabedoria, para te admirares mais de Maria que compadecia, do que do Filho de Maria a padecer? Ele pôde morrer no corpo; não podia ela morrer juntamente no coração? É obra da caridade: ninguém a teve maior! Obra de caridade também isto: depois dela nunca houve igual.

(São Bernardo, abade - Sec. XII)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Padre Kolbe, o homem do "Nunc Dimittis"

“Nunc dimittis”, também conhecido como Cântico de Simeão.
Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste em face de todos os povos, luz para iluminar as nações, e glória de teu povo, Israel.” (Lc 2,29-32)

Simeão está diante de Jesus e pronuncia o seu canto. “Agora, Senhor, podes despedir...” Este canto que Simeão cantou no anoitecer da sua vida e a liturgia nos propõe para ser rezado ao anoitecer de cada dia, é o canto de alguém que se sente livre de um peso que está se tornando insustentável.

Agora, Senhor, podes despedir...”, para dizer: finalmente, Senhor, “vi a tua salvação”. Simeão está no anoitecer da sua vida, vê Jesus e diz: agora que eu te vi, não tenho mais medo de morrer. Não tenho mais medo desta inquietude que me queimava por dentro, desta noite que eu não queria atravessar. Não tenho mais medo porque os meus olhos te viram, Jesus. Tu estás presente, estás comigo. “Tu és luz para iluminar as nações, e glória de teu povo, Israel.

Agora, Senhor, podes despedir...”: há a disponibilidade de Simeão em deixar o mundo exatamente agora que “viu a salvação” e entrou a luz. Simeão nos ajuda a estarmos prontos a deixar o que nos é pedido nos vários momentos da vida por causa da idade, por causa da doença ou por quaisquer outros motivos. Simeão nos ajuda a viver o desapego das pessoas, das coisas, com grande serenidade.

Quantos homens e mulheres do “nunc dimittis” – se assim podemos chamá-los – encontramos em nosso caminho!

EttyHillesum – nas vésperas de sua deportação para Auschwitz – escreve: “Dizem-me: uma pessoa como você tem o dever de se salvar, tem tanto o que fazer na vida, tem muito ainda pra dar... Se Deus decide que eu tenha muito o que fazer, bem, então o farei... e se eu não sobreviver, se verá quem sou pelo modo como morrerei.

Em pouquíssimo tempo Niepokalanów tornou-se o maior centro midiático polonês. Antes da explosão da segunda guerra mundial ali se publicava nove edições jornalísticas (uma em latim para o clero do mundo inteiro), livros, subsídios, panfletos e publicidades. Existia também uma estação de rádio com a sua redação e já se estava pensando na televisão, ainda que a mesma estivesse em fase de experimentação.

Maximiliano Kolbe e o desejo de anunciar o Evangelho ao mundo inteiro.
As edições jornalísticas em Niepokalanów eram as mais lidas na Polônia. A tiragem média do “O Cavaleiro da Imaculada”, nos anos 30, era de 700 mil cópias; a do “Calendário do Cavaleiro da Imaculada” era de cerca de 380 mil. O “MalyDziennik(Pequeno Jornal), quotidiano católico, com alta tiragem, saia em sete edições diferentes, para cada região polonesa.

Assim como na Polônia, nas terras japonesas Maximiliano Kolbe escolhe investir as suas energias na evangelização, na formação das consciências e inflamar os corações com o fogo do Evangelho.

Nunca satisfeito com as metas alcançadas, Padre Kolbe faz projetos para imprimir e difundir o “Kishi” em toda a China. “Penso também na Índia, no Amã e na região da Síria para as seguintes línguas: árabe, turca, hebraica” – assim escreve em 1930 a Padre Cornélio Czupryk. Funda na terra nipônica o primeiro seminário da sua Ordem.

No ápice da sua atividade apostólica e missionária anuncia aos seus frades que mesmo quando tudo for destruído permanecerá o amor. Padre Kolbe, o homem dos grandes projetos editoriais, raciocina em termos mass-midiáticos. Sonha com um mundo a ser evangelizado e termina os seus dias em Auschwitz, no bunker da fome. Oferece-se espontaneamente para salvar um pai de família.


Com o martírio tornou-se testemunha crível da civilização do amor porque acreditou que se recebe a vida quando esta é doada. O sim do “só o amor constrói” é um sim fecundo. Gera continuamente e chegamos ao Papa Bento XVI : “Neste momento há em mim uma grande confiança porque o Evangelho é a força da Igreja, purifica, renova, frutifica. Esta é a minha confiança, esta é a minha alegria.”

Para os homens e mulheres do “nunc dimittis” Deus é mais importante do que a missão que confiou a eles. O que realmente conta é que a obra de Deus vá em frente com eles ou sem eles. É difícil o desapego, é difícil ficar de lado. É preciso fixar o olhar no Absoluto para poder dizer com Santa Teresa D'Ávila: “Só Deus basta.” Sozinhos não somos capazes, como Simeão, é preciso ir ao Templo e “tomar Jesus nos braços.” (Lc 2,28)

Angela Sposito
Missionária da Imaculada-Padre Kolbe
Polônia

Todo o dia 14, as Missionárias da Polônia estarão depositando na cela de Padre Kolbe as intenções enviadas para o e-mail: celakolbe@kolbemission.org