segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ouvir a voz de Deus

Em uma manhã de sol, o olhar de uma jovem que buscava resposta para a sua vida cristã, encontra nas mãos sujas e nos pés descalços de pessoas que trabalhavam no lixão do Alvarenga, na divisa entre as cidades de São Bernardo e Diadema, em São Paulo, a motivação de sua vida: "Quero fazer a vontade de Deus, aonde o Senhor me mandar eu vou." Era meados de 2000.

Do alto da colina, montanhas de lixos eram derramados dos caminhões, que ali chegavam e logo saiam. Os catadores de lixos ficavam embaixo daquela chuva de restos de coisas que não mais serviam, cada um com seus apetrechos e correndo para separar o melhor produto encontrado para depois ser vendido por quase nada.

Josenilda Araujo de Oliveira não era a única a observar a cena, com ela estava também o Grupo Franciscano e algumas Missionárias da Imaculada-Padre Kolbe. O objetivo da visita era distribuir as cestas básicas e rezar com aquelas pessoas. "Foi no lixão, através da oração do Pai Nosso, que eu peguei na mão de um deles, suja, olhava para os rostos deles, sujos, para as crianças com os pés no chão; naquela sujeira toda, percebi a presença de Deus."

Durante a oração, um caminhão chega e começa a jogar o lixo. Aquele momento é invadido por uma certa incerteza; no ar um silêncio. De repente uma voz: "Continuem, pegamos o material depois." De mãos dadas, o lixão se torna Igreja e Deus se faz presença. "Uma experiência muito forte, Deus me chamou ali. Deus me chamou no lixão, com os pobres. Ou  me tirou do lixo, era como que me despertasse para a vida, para algo maior, para a presença dele."

Olhando para o céu, era como se Josenilda tivesse ouvido a voz de Deus, nasce nela o desejo de segui-lo. Na época, ela nem sabia o significado da palavra seguir, tão pouco poderia explicar o que era vocação, desejava somente fazer o bem ao próximo. Naquele instante, lembrou de Madre Teresa de Calcutá, que vivia sua doação ao próximo sem querer nada em troca.

Viver a caridade com simplicidade nos ajuda a compreender o projeto de Deus em nossas vidas: "No serviço simples é que encontramos a vocação. No grupo franciscano era muito simples, ajudávamos as pessoas, montávamos as cestas. O importante era o amor que se colocava nelas."

No coração dessa jovem, uma inquietude ardia. "Depois que voltei do lixão, faltava algo, aos poucos percebi que desejava estar mais com Deus, ser totalmente dele." Hoje, Josenilda é uma consagrada com os votos de pobreza, castidade e obediência, mas antes do sim definitivo foi preciso dar o primeiro passo: escutar a voz de Deus por meio da caridade ao próximo.

Que possamos ouvir a voz de Deus assim!

Lourdes Crespan
Missionária da Imaculada-Padre Kolbe