segunda-feira, 6 de maio de 2013

Reação anti-mística e piedade tradicional no século XVIII

Enquanto os místicos continuam vivendo pelos caminhos do aniquilamento, do abandono à vontade De Deus e da docilidade ao Espirito Santo, vai se delineando também uma oposição à mística. Neste clima surge o assunto do quietismo, atitude espiritual que mostra o acesso aos estados místicos sem ascese previa, a idéia que se pode viver em estado de amor, a afirmação da inutilidade dos exercícios de piedade e do recurso à humanidade de Cristo, a absolutização da consciência unida diretamente a Deus.
Depois tudo isso foi condenado pela Igreja.A desconfiança que desacredita a mística, se intensificaem meados do século XVIII.
Estes movimentos ideológicos não exercem influencia real na Espanha e na Itália, onde a piedade tradicional continua expandindo-se através de numerosas festas, onde a espiritualidade se difunde entre o povo mediante as missões populares de um Leonardo de Porto Mauricio (1676-1755), que prega as verdades eternas para encaminhar os fieis à confissão e à comunhão e que explica a todas as categorias sociais o modo como devem integrar a missa em sua existência. A devoção à paixão e ao Sagrado coração continua difundindo-se. No ano de 1765, um decreto de Roma permite a celebração litúrgica do oficio e da Missa do Sagrado coração.
Nesta época Paulo da Cruz (1694-1775), místico que passou por grandes períodos de aridez espiritual, propaga em suas cartas e através da fundação de uma nova congregação religiosa a devoção à paixão do Senhor.
De seu lado, Afonso Maria de Ligório (1696-1787), animado por intenso espírito missionário, prega o grande meio da oração, uma oração que passa por Maria. Sua teologia moral e sua pregação ascética reagem contra o jansenismo, ajudando os cristãos a viver no amor. Os redentoristas que ele fundou, contribuirão com suas missões para a formação do povo cristão. Sua espiritualidade afetiva prepara as almas para se conformarem com a vontade de Deus.
Na França, durante o árduo período da revolução (1789 e ss), a resistência espiritual de sacerdotes heroicos, de mulheres de fé, leigas ou religiosas, e de mártires, deu testemunho de que, apesar dos rigores do regime, o sentido cristão continua vivo entre as massas dos fieis. A atitude muito apologética dos pensadores católicos, não renovou os fundamentos dogmáticos da piedade popular. Foram destruídas as obras educativas e caritativas, bem como as missões populares. O único apostolado que permanece, numa época em que é preciso viver e sobreviver, é o apostolado de contatos, que assegura aos fieis corajosos o sacramento da penitencia e da Eucaristia.
 
2.Germinações e realizações espirituais ao longo do século XIX.

O século XIX é atravessado por crises e guerras, que mesmo sendo fontes de sofrimento pelos povos, apresentam a vantagem de estimular a espiritualidade dos cristãos. Os princípios do século são muito humildes, mas podemos dizer que todas as iniciativas espirituais deste século, deixam sulcos profundos pelos quais pude caminhar o século XX na sua primeira metade.
A literatura espiritual não apresenta grande originalidade na Espanha e na Itália. É pouco abundante na França, embora não cesse de aumentar. Se propagam as edições dos autores espirituais clássicos. Se multiplicam os livros de espiritualidade sacerdotal. Os missais, mais devocionais do que litúrgicos, ajudam a viver o sentido da missa. As Vidas de pessoas santas, apresentam o ideal cristão em vivencias concretas e reais.
É preciso ter em conta uma vasta literatura de divulgação, de livretes, folhetos, opúsculos e orações. Pequenos tratados teológicos escritos com ardor, manifestações entusiastas de piedade, controladas por uma autoridade eclesiástica benevolente que impede os exageros graves, foram instrumento de formação espiritual.
O Cristocentrismo continua consolidando-se na devoção à Eucaristia sob múltiplas formas: a adoração, que se converte as vezes em “Adoração perpetua”, é praticada e inserida nas estruturas dos novos Institutos religiosos. O movimento da comunhão frequente se acentua com o motu próprio de Pio X. A devoção ao Sagrado Coração penetra em numerosos ambientes sociais. As consagrações das famílias e de diversas nações são o preludio da consagração do gênero humano, anunciada pelo AnnumSacrum de Leão XIII.  Sefundamentam muitas congregações religiosas com as mais diferentes finalidades, sob o titulo de Sagrado Coração, que honram ou no qual se inspiram as obras a que se dedicam. Esta união com Cristo não se concebe só de forma intimista; muitas pessoas ou grupos a orientam para um apostolado que vê Cristo naqueles a quem se dirige.
Também a espiritualidade e a devoção mariana experimentam interessantes impulsos teológicos e práticos. As aparições da SS.ma Virgem, que não são unicamente as de Lourdes, ajudam os fieis a recorrerem á intercessão e à mediação de Maria Imaculada
Que lembra uma mensagem de penitencia. As congregações religiosas e as peregrinações constituem poderosos agentes desta devoção , que tende, algumas vezes, a separar a Mãe de Deus de seu Filho.
A definição da infalibilidade papal, proclamada pelo Concílio Vaticano I, contribuirá para fazer ver no Papa a autoridade suprema e o guia espiritual de todos os católicos.
Católico também e animado de um zelo ardente de evangelização é o impulso missionário que se manifesta em novas congregações religiosas, na iniciativa que desembocará na Propagação da fé, assim como no interesse dedicado às missões em terras pagãs.
A consciência cristã adquire dimensão universal.
Também a vida religiosa manifesta sua vitalidade espiritual.
Durante os séculos XIX e XX fundam-se 168 institutos religiosos masculinos e 1086 congregações femininas, cuja orientação, principalmente apostólica, se especifica em obras de ensinamento, de educação da juventude, de assistência aos pobres, de serviço social aos órfãos, aos inválidos, aos idosos e aos enfermos mentais.
O século possui muitos santos fundadores e santas fundadoras que, sensíveis a alguma grave necessidade da sociedade de seu tempo e, estimulados pela graça, criam entre mil dificuldades, instituições e obras que dão testemunho de que o amor de Cristo é inseparável do amor dos irmãos.
Os leigos não ficam atrás ; um dos traços significativos da espiritualidade do século XIX é a retomada de um cristianismo social, que no caso de alguns se preocupa com a condição operaria. Em outro casos se preocupa com os pobres (Guanella, Cottolengo), ou com o apostolado através da imprensae dos meios de comunicação social em geral (Alberione) e em outros, finalmente, adota formas de ação católica decidida a trabalhar no âmbito familiar e em outro setores da vida.
A espiritualidade sacerdotal progride em profundidade. Oas candidatos ao sacerdócio, cuja bagagem teólogica é relativamente exígua durante uma grande parte do sec. XIX, são formados com uma certa austeridade, que não os prepara diretamente para cumprir seus deveres pastorais. O ideal do sacerdote é exaltado em numerosos livros de piedade e encarnado, em grau impressionante, por sacerdotes diocesanos e religiosos, cuja vida digna e cujo zelo produzem forte impacto nos fiéis.
 
3.Espiritualidade na primeira metade do século XX.

O século XIX encerra-se com a condenação do americanismo,por Leão XIII, em 1899. Em 1907, Pio X condenava o modernismo.
Nenhum dos dois movimentos era tipicamente espiritual; no entanto, nenhum dos dois foi indiferente à história da espiritualidade do século XX. Por que foram condenados? Porque os dois aceitavam que as virtudes “ativas” têm de se antepor às passivas e promover preferencialmente seu exercício.
Os movimentos bíblicos, litúrgico, pátristico e ecumênico tiveram uma importante incidência na espiritualidade dos primeiros 50 anos deste século. Hoje não podemos esquecer alguns fatos, que preparam o Concilio vaticano II e o movimento espiritual pos-conciliar. Alguns destes, mais importantes foram:
 
- a dicotomia entre espiritualidade e mundo moderno se agrava perigosamente. As conquistas industriais e os movimentos sociais recentes evidenciavam no cristianismo uma vida anacrônica, não mais em linha com a civilização.
 
- diálogo com este mundo.
Alguns dos espíritos mais perspicazes buscaram um dialogo com este mundo, convencidos do que a historia é uma mina que encerra grandes verdades além de autênticos problemas e não á uma calamidade que preciso suportar.
Alguns mais importantes foram: Teilhard de Chardin e Dominique Chenu.
Com eles espiritualidade e mundo, ou história, começavam a se reconciliar.
Assim podia nascer nas décadas dos anos 40 uma coleção de livros, coleção intitulada de “espiritualidade”, em que se ia aprofundar esta problemática.
Se fala de nova espiritualidade. E a novidade era maior do que hoje pensamos; por isso ela não encontrou um caminho fácil. A hierarquia estava bastante míope... não queria ver esta novidade. Como sempre as novidades geram medo.
Junto a hierarquia nasceu, no fim da segunda guerra mundial, o movimento Dieuvivant, cuja cabeça era Padre. Danielou. Este movimento tentava conter o forte movimento secularizante e recuperar o primado da dimensão contemplativa no mundo.
Danielou e Bouyer, temiam que o cristianismose desvirtuasse, convertendo-se em um humanismo, ou que, pelo menos insistisse demais na necessidade prévia de humanizar o mundo para depois cristianizá-lo.
 
- Duas espiritualidades?
 
Na verdade, pelo que falamos, parece que nasce uma nova espiritualidade.
A espiritualidade tradicional havia estado ligada a realidades transcendentes, à separação do mundo, à devoção, ao intimismo.
A mudança era a seguinte: as matérias ou conteúdos antes chamados profanos agora também são parte integrante da espiritualidade. A espiritualidade vinha assim, a se identificar como a vida normal e real de um cristão qualquer, fosse qual fosse o ambiente em que ele se movesse.
A chegada de Jõao XXIII supôs o começo de um ambiente menos tenso na humanização do cristão. O anuncio do Concilio permitiu revolver muitos temas e fazer propostas novas. E a celebração conciliar implicou, no seu conjunto, uma valorização desta nova linha teológica. Sobre tudo a Gaudiumetspes, abria as portas para uma espiritualidade da história real em que entram todos os conteúdos vitais.
 
Marina Melis
Diretora Geral