terça-feira, 28 de maio de 2013

O golfinho e o mergulador

Vi o vídeo (abaixo) feito por um grupo de mergulhadores que filmavam, no Havaí, Arraias da espécie Manta. Em um determinado momento, se aproxima da equipe de filmagem um golfinho que nadava com dificuldades por ter um anzol preso em seu peito e linha de pesca enroscada em uma de suas nadadeiras. Um dos mergulhadores percebe a situação e vai ao seu encontro. O golfinho não foge e permite, pacientemente, que o mergulhador retire o anzol e a linha, fazendo com que ele voltasse a nadar com total liberdade.

Esse vídeo nos leva a uma reflexão. Nosso modelo civilizatório atual é explorador, concentrador. Exploramos os recursos naturais de uma forma que, se todas as pessoas no mundo tivessem os mesmos padrões de consumo do europeu ou do norte americano, o Planeta não suportaria. No entanto, Deus tudo criou (Gn 1-2) e colocou toda criação para que o homem a administrasse, pois fomos feitos a Sua imagem e semelhança (Gn 1,26ss). Ocupamos um lugar especial no Seu projeto já que, pelo seu amor, existimos mesmo antes de toda a criação (cf Ef 1,4). Nesse projeto, a comunhão com Deus, com toda a criação e com o cosmos é condição fundante. 

Nossa história nos mostra que rompemos com esse projeto não só na Origem, mas até hoje, num movimento contínuo e infelizmente progressivo. De administradores passamos a proprietários. Tornamos tudo propriedade. Propriedade de poucos com os frutos para poucos. Usamos e usaremos tudo até a exaustão dos recursos. Rompemos com a comunhão e a harmonia. Somos nós, senhores de tudo. Somos nós, os criadores. Somos nós, deuses.

O golfinho, na sua irracionalidade, nos mostra outra postura. Ele compartilha com o mergulhador o mesmo território, pois sabe que este não é seu, ou só seu. Para ele o Outro não é presa nem predador. Para ele o outro é irmão, posto que ambos são criaturas com mesma origem. Isso lhe dá a condição para a aproximação.

A atitude do golfinho faz com que, pela reminiscência, o homem retome a idéia de que não somos seres concorrentes, mas sim estamos com correntes, elos ligados entre si e todos ligados ao Pai que ama tudo e a todos. Assim, durante os 3 minutos aproximadamente que dura a ação, em perfeita harmonia como em uma dança, a comunhão é refeita. Na ótica de cada um o Outro é o seu Próximo ea interação é a coisa mais natural.

Francisco, no século XII, foi quem melhor teve essa consciência. Exemplo a ser imitado não apenas no uso de seu nome ou de sua batina, mas na adoção de sua única regra: viver o Evangelho.

Henrique de Freitas
Voluntário da Imaculada-Padre Kolbe
Economista e teólogo