quarta-feira, 22 de maio de 2013

Dimensões da experiência cristã

1. Dimensão experiencial.

O que é a experiência? Pode ser definida como um conhecer por dentro, partindo da própria relação com as coisas.

Todos nós temos algumas experiências, políticas, sociais, desportivas, religiosas, etc.
A experiência não é dedução intelectual. É algo vital que se sofre na própria carne; do contrario não é experiência. Exemplo: Não é a mesma coisa deduzir o que é banho no mar pelo fato de haver estudado tudo em pormenores, e saber o que é a experiência por que passa a pessoa que tomou banho de mar em um dia de calor. Sem tantos dados explicitamente possuídos e combinados, ela sabe, de maneira diferente, o que a coisa é, sabe de dentro para fora, sabe por dentro. A experiência surge da vida e retorna à vida.  Mas não volta como veio. A pessoa já está diferente, já mudou.
Então o que é a experiência cristã?
Se a experiência consiste em conhecer por dentro, a experiência cristã é conhecer o interior de Cristo... experimentar a sua presença e a sua ausência também.

Qual é o objeto e o lugar da experiência cristã?

As vezes, sobretudo, no passado, pode ser que temos considerado como lugar da experiência de Deus um campo muito estreito capaz de nos propiciar a experiência dele.  Com efeito, é evidente, que a tradição religiosa ocidental assinala alguns lugares como sendo aptos à realização da experiência religiosa (culto, orações, silêncio, igreja etc.). Esta é uma posição que desvaloriza o enorme campo do cristão e parte da convicção de que em lugar algum como aí se podia ter uma experiência tão direta, explicita e forte de Deus. Parecia quase que as coisas exteriores não interferissem na relação entre Deus e o homem.  Mas nesta posição tinha um esquecimento importante:o cristianismo é uma religião de mediações: também na experiência. 
E quais seriam estes novos campos, mais amplos onde posso fazer a experiência de Deus? São a matéria, o compromisso mundano, a marginalização.

A matéria = é tudo o que possa fazer referencia à nossa origem da terra e da carne: corpo, paternidade, maternidade, amor humano, sexo, prazer, alegria, sofrimento, beleza, amizade... Anteriormente, temos a impressão, que a experiência que pudesse haver com tais realidades não tinha nada a ver com a experiência cristã. No máximo era uma experiência neutra.

O compromisso mundano = faz referência a tudo o que é transformação do mundo através da técnica e transformação das estruturas sociais. Realidades como trabalho, economia, política, técnica, arte, direitos, cultura, etc., também entram como mediações na experiência cristã. Experimentá-las como realidades cristãs á ampliar o campo desta experiência.

A marginalização = é o trabalho duro, a falta de emprego, a miséria, a fome, a família numerosa, a violencia, a falta de cultura, a emigração... e todas as taras profundas que a sociedade alimenta e suscita. Alguns talvez se perguntam se aí cabe a experiência cristã. Nesta experiência de milhões de cristãos, sobretudo nos Países pobres, Cristo está presente. Os cristãos pobres e sofridos sabem pouco sobre o Cristo, mas sabem o suficiente para misturar a própria existência com a memoria do Cristo.

Experiência cristã anônima.

Há pessoas que vivem situações sem relação alguma visível com o cristianismo. São pessoas boas, que jamais praticariam o mal, ou que fazem muito bem, que tem experiência enraizada do amor, da compreensão, da amizade, do compromisso, da dor... São cristãos anônimos, e como experiência cristã anônima pode ser qualificada sua experiência de fé.

Critérios de avaliação.

À Luz de quais critérios deve ser examinada a experiência cristã?A resposta pode ser simples: à luz de Jesus e de seu Espírito.

a. Jesus Cristo, experiência radical.
Jesus como critério, como raiz da conduta cristã, foi uma constante na história e continua sendo-o. É verdade que cada um tem sua imagem de Jesus e que, por conseguinte, recorrendo a Jesus, talvez nem todos nós encontremos os mesmos critériosque possam esclarecer a vida de um cristão. Entretanto, tem algumas dimensões que não podemos esquecer, elas são conhecidas com os termos de culto e missão.  O culto se expressa através a profissão ou a confissão de fé, o louvor, a adoração, a confissão dos pecados, a petição e a ação de graças.
Mas também a missão é a matriz geradora da cristólogia. O cristão, de um modo ou de outro, deve participar destas dimensões para corresponder ao que deve ser uma experiência cristã.

b. O espírito de Jesus.
É o Espirito quem guia a Igreja e o cristão em seu encontro com Cristo. É o Espírito quem move o cristão de todos os tempos no sentido de tornar realidade visível as dimensões que Jesus fez em outra época. O Espirito preside à evolução da historia, É portanto na evolução da historia que o cristão tem de experimentar cristãmente a vida.

Agentes desta avaliação.

1. A responsabilidade primaria é da própria pessoa.
Nada e ninguém pode antepor-se à responsabilidade pessoal. A própria pessoa que passa por esta experiência, é a primeira e a ultima responsável pelo que nela acontece. Será ela quem deverá buscar e refletir, perguntar e confrontar sua própria experiência, para chegar à certezaque lhe permita viver bem a própria fé.

2. A Igreja, mãe e mestre.
Fora da Igreja, seja lá qual for a explicação dada sobre esta expressão, não há verdadeira experiência cristã.
Para que a Igreja possa realizar essa tarefa, ela própria terá que converter-se a cada dia à autêntica experiência cristã,  ser primeiro mãe e, somente depois mestra.

2.Dimensão trinitária.

A vida cristã procede e tende à comunhão com Deus Trino e, se especifica:

a) Em relação com o Pai = filhos de Deus
b) Em relação com o Filho = vida em Cristo, seguimento de Cristo, inserção em seu Corpo místico.
c) Em relação com o Espirito Santo = caminho espiritual de maturidade e de santidade
 
a) Filhos de Deus.

No AT: Deus só é chamado de Pai com extrema discrição.
O termo Pai aplicado a Deus, está exclusivamente no contexto da eleição, da aliança e da salvação histórica; o que faz que Deus seja chamado de Pai é em sentido exclusivamente metafórico e sem particular insistência. Enfim, Israel adota atitude muito reservada com relação à paternidade de Deus e à sua própria filiação. Jahweh é Deus único; não tem nem filhos nem filhas. É chamado Pai somente porque se ocupa com Israel, porque o chama, porque o liberta, o acompanha no seu caminho. Por isso é pai, pastor, rei, esposo; e Israel é filho, rebanho, súdito, esposa de Jahweh
A fórmula mais densa em que se chama Deus de Pai no AT é Is 63,16. “Tu Jawheh, és nosso Pai!”.
No NT: Nele a indicação de Deus como Pai está muito mais desenvolvida, enriquecendo-se com os mais diferentes matizes.
Nos textos paulinos a teologia da paternidade-filiação divina acha-se desenvolvida ao máximo. A formula “Deus Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” aparece cinco vezes (2Cor1,3; 11,31; Rm 15,6; Col 1,3; Ef 1,3).
A paternidade de Deus em relação aos homens é lembrada 32 vezes. Paulo apresenta 17 vezes Jesus como filho de Deus,e 13 vezes atribui aos homens o titulo de filhos de Deus (Gl 3,26;4,6.7; Rm 8,14.16.17.19.21;9,7.8.26; Fl 2,15; Ef 5,1).
A evocação, porém, da paternidade de Deus, não é certamente exclusiva de Paulo. João apresenta 114 vezes Deus como Pai de Jesus e 28 vezes Jesus como Filho de Deus.
Os sinóticos são, sem dúvida alguma, mais discretos do que o Paulo e o João em atribuir a Deus o titulo de Pai de Jesus Cristo; só dois textos são comuns aos três (Mc 8,38;14,36).
A paternidade de Deus em relação aos homens é mencionada bem raramente: um só texto em Mc(11,25-26); Mt e Lc tem quatro menções comuns; Lc tem três próprias e Mt tem 12.

Significado e importância de ser filho de Deus para Jesus e, para nós de ser filhos adotivos.

Jesus é chamado Filho de Deus de modo positivamente novo se comparado ao sentido do AT. Ele não é um filho, mas o Filho de Deus. Não é apenas o herdeiro que o Pai envioudepois dos profetas, mas tem uma união especialíssima de conhecimento e de amor com o Pai; esta filiação especial, total, torna clara a distinção entre Ele e nós. Também os discípulos e os homens são chamados filhos de Deus, mas o Pai e seu de modo especial, profundamente original (Mt 7,21; Lc 2,49; Mc 1,11;9,7), que indica a intima estrutura de sua vida, de seu destino, de seu anseio continuo,a fonte secreta de seu agir, de seu orar, de seu ser inteiro. Ele é verdadeiramente uma só coisa com Deus,em unidade de vida, de operação, de glória, de poder e de qualquer outra realidade, basta um só texto esplendido confirmanod isso:  Jo 5,19-26. Mas para que possamos explicar a evolução plena, quantitativa e qualitativa, do tema paternidade-filiação no NT, ainda falta algo, a saber, o vinculo entre Jesus Filho de Deus e nós, filhos do homem.
Então emerge a figura de Jesus como filho do homem, como homem entre os homens. A expressão, “filho do homem”, aplicada a Jesus, acha-se quase que exclusivamente nos evangelhos, e sempre nos lábios de Jesus. Esta terminologia se concentra sobretudo no contexto daqueles momentos em que Jesus experimenta até o fundo que é igual aos homens na pobreza, no sofrimento e na fragilidade. (Mt 8,20; 11,19;20,28; Mc 8,31; Mt 26,63-64).
O Pai, ao enviar o Filho, que se faz homem entre os homens, e ao dar o Espírito Santo, o Pai fez dos homens seus filhos. Em Jesus, pois, é que Deus se dá e recebe o nome de pai, pai dele e pai nosso.
Através dele, afirma João, nos vem a graçae o poder de converter-nos em filhos de Deus e de nascer segunda vez de Deus (Jo 1; 3,3-5). Por isso a Escritura fala de nós como filhos de Deus.
Jesus nos ensina a nos dirigirmos a Deus como Pai (Mt 6,9), chama de filhos os pacíficos (Mt 5,9), os que amam plenamente (Lc 6,35), os que ressuscitaram para a vida eterna (Lc 20,35-36). Esta filiação implica aperfeiçoamento sem limites, cumprimento da vontade do Pai, imitação da bondade, da misericórdia, e do amor universal que está presente na experiência salvifica.

b) Cristocentrismo para a imitação – seguimento de  Jesus Cristo.

“A fé cristã não é uma 'religião do Livro'. O Cristianismo é a religião da 'Palavra' de Deus; 'não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo' (São Bernardo). Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos 'abra o espírito à inteligência das Escrituras' (Lc 24,45).”
Estas palavras são do Catecismo da Igreja Católica (Gráfica de Coimbra, 1993, nº 108). Com elas, quero sublinhar o Cristocentrismo da Bíblia. Ou seja: Cristo está no centro da Bíblia e constitui a sua essência ou miolo da sua mensagem.  Cristo está no centro da Bíblia, como está no centro do Tempo. O Tempo, dividimo-lo em antes e depois de Cristo; a Bíblia, em Antigo e Novo Testamento, ou seja: o que aconteceu e foi revelado até Jesus Cristo e a partir de Jesus Cristo, respectivamente. Cristo é, também, o centro da mensagem da Bíblia; ou, como diz a Dei Verbum, do Vaticano II, “é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação” (nº 2).
De fato, depois de ter preparado, “através dos séculos, o caminho ao Evangelho” (nº 3), Deus envia o seu Filho que “consuma a obra da salvação que o Pai lhe confiou, [...] completa e confirma com o seu testemunho divino que verdadeiramente Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e nos ressuscitar para a vida eterna.Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não mais se deve esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo” (nº 4).

Jesus Cristo foi a “primeira escolha” de Deusno seu plano de salvação da humanidade.

Deus, desde o princípio, quando pensou revelar-nos a sua vontade e acionar o seu projeto de salvação, já previu fazê-lo em Cristo e por Cristo; Cristo não foi um remendo tardio que Deus pôs no seu projeto inicial frustrado pelos “primeiros pais”. Mas, até à vinda de Cristo e à sua morte na cruz “por nós e por todos, para remissão dos pecados”, Deus “adaptou-se” à capacidade humana, “condescendeu” com os limites da nossa natureza.
Deste modo, Cristo marca toda a caminhada do Antigo Testamento na esperança do Messias e marca toda a vida dos cristãos em Cristo até que Ele venha de novo no fim dos tempos; desde o “proto-Evangelho” de Génesis 3,15 (em que aparece de forma velada sob a descendência da mulher que há de esmagar a descendência da serpente), até ao “Vem, Senhor Jesus” do Apocalipse 22,20. Ou seja, do primeiro livro ao último.
Nessa revelação, umas vezes Deus “falou” por figuras; outras vezes, por meio de palavras; outras, por meio de pessoas. O autor da Carta aos Hebreus tem isso em conta, quando diz: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho” (Heb 1,1-2). E Paulo faz esta leitura cristológica de toda a Bíblia, juntando Antigo Testamento, Novo Testamento e tempo da Igreja:
“a Lei tornou-se nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Uma vez, porém, chegado o tempo da fé, já não estamos sob o domínio do pedagogo. É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.” (Gl 3,24-27)

Cristo, ontem e hoje.

No início da Vigília Pascal, o sacerdote vai marcar o sinal da cruz e a primeira e última letra do alfabeto grego no Círio novo, e dizer: “Cristo, ontem e hoje, Princípio e fim, Alfa e Ómega.” Aqui estamos nós, cristãos de hoje, chamados a aceitar o Cristo de ontem e de sempre como único Mestre, e a viver o segredo que tornava os seus ensinamentos superiores aos de todos “mestres” de Israel: a unidade entre aquilo que Ele dizia, aquilo que Ele fazia e aquilo que Ele era. Para isso, duas coisas são precisas:
Aprender a lição da sua vida. Não apenas saber e repetir as suas palavras. Na Exortação apostólica sobre a Catequese para hoje, (Catechesi Tradendae, 1978), João Paulo II diz que “toda a vida de Cristo foi um ensinar contínuo: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelas pessoas, a sua predileção pelos pequeninos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo e a sua ressurreição, são o atuar-se da sua palavra e o realizar-se da sua revelação. De modo que, para os cristãos, o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e mais populares do Jesus que ensina.” (nº 9)
Fazer uma Catequese cristocêntrica. Quer isto dizer que na catequese é Cristo, Verbo Encarnado e Filho de Deus, que é ensinado – e tudo o mais em relação com Ele; e que somente Cristo ensina. Qualquer outro que ensine, fá-lo na medida em que é seu porta-vos, permitindo a Cristo ensinar pela sua boca. A preocupação constante de todo o evangelizador, seja qual for o nível das suas responsabilidades na Igreja, deve ser a de fazer passar, através do seu ensino e do seu modo de comportar-se, a doutrina e a vida de Jesus Cristo. Que frequente e assíduo contato com a Palavra de Deus transmitida pelo Magistério da Igreja, que familiaridade profunda com Cristo e com o Pai, que espírito de oração e que desprendimento de si mesmo deve ter um evangelizador, para poder dizer: “A minha doutrina não é minha”.

c) Maturidade e santidade cristã.

Tanto no AT quanto no NT é constante o convite ao progresso espiritual (Jer 6,16; Sl 26,13; 2Cor 4,16; Hb 3,7;4,10; 2Pd 3,18; Ef 4,13; Col 1,10).
Tanto no AT quanto no NT é constante o convite ao progresso espiritual (Jer 6,16; Sl 26,13; 2Cor 4,16; Hb 3,7;4,10; 2Pd 3,18; Ef 4,13; Col 1,10).
A maturidade ou perfeição cristã é o desenvolvimento pleno de todas as potencialidades da graça em todos os níveis do organismo sobrenatural. A maturidade ou perfeição cristã tem já na fé sua própria orientação, seu significado e seu impulso (Jo 6,29; Ef 3,17), mas realiza-se essencialmente na caridade (Mt 5,44ss; 1Cor 13, 1ss; Jo 17,21). A fé e a esperança teologais são relacionadas com a caridade, como preparação imediata para ela; de tal modo que o domínio da caridade na vida do homem não poderá chegar a ser perfeito se, ao mesmo tempo, não se tornar perfeito o exercício da fé e da esperança. Recebidas como germes de vida eterna, estas três virtudes são destinadas a crescer, a dar vitalidade ao cristão, a conseguir sua perfeição.
São Paulo fala delas como de forças dinâmicas que tem papel decisivo no amadurecimento da vida espiritual (I Ts 1,3; 5,6s) Supõe que haja comportamento cristão “infantil” e o opõe à conduta verdadeiramente “adulta”. Com frequência usa as antíteses “crianças-adultos”, ou “imperfeitos-perfeitos” (ICor 2,6; 13,10s; 14,20; Fl 3,15; Cl 1,28). Segundo São Paulo, “criança” é aquele que está no começo da vida cristã, dando seus primeiros passos, ainda indecisos, e balbuciando as primeiras palavras; “adulto”, ou “perfeito” é o cristão em que os germes de vida nova recebidos no batismo se desenvolveram e alcançaram aquela plenitude que possuíam só em potência.

1.Sinais de “infantilismo” espiritual.

Quais são os sinais de infantilismo espiritual de que o cristão deve libertar-se?  Como é possível reconhecê-las? Dos Escritos do NT se deduzem especialmente as seguintes:
a) A incapacidade de aceitar o evangelho em sua totalidade de conteúdo e de exigências (ICor 3,1ss) É o sinal de que ainda se está presos demais às concepções naturais. Os Corintios se comportam ainda como crianças, que “vão em busca da sabedoria humana” em vez de buscar a “sabedoria de Deus”, anunciada pela “loucura da pregação” (ICor 1,21ss)
b) O deixar-se mover pela “carne” e não pelo “Espírito”. A oposição entre “homens carnais” e “homens espirituais” em São Paulo é paralela à oposição “crianças-adultos” (ICor 3,1; 1,10ss) É sinal deste infantilismo deixar-se levar por motivos humanos, por invejas e rancores.
c) A falta de tomada de consciência da posição exata do crente diante de Deus; a pessoa já se julga sabia, conhecedora dos caminhos e dos segredos de Deus; como consequência, pensa que não tem nada que aprender...
d) A autossuficiência e a presunção de quem acredita demais em suas próprias forças e não reconhece que tudo é dom de Deus. O seguidor de Cristo, adulto na fé, tem que possuir certos aspectos positivos do espirito de infância, que o capacitem a ter simplicidade, acolhimento alegre à graça, ausência de cálculos, generosidade, sinceridade (Mt19,14; 18,3s; Lc 12,32)
e) Dar mais atenção a si mesmo do que a Deus; afetividade centralizada em si mesmo, em vez de afetividade livre para poder dar-se ao Outro, que “nos amou primeiro” (1Jo 4,10).
f) A concepção da liberdade como libertinagem (1Cor 8,9; 9,4s; 10,29), quando, ao contrário, temos que estar com a disposição de discernir as coisas e as ações segundo os critérios de Cristo, já que tudo pertence a nós e nós pertencemos a Cristo (1Cor 3,23).
g) Deixar-se levar pela preocupação com os carismas visíveis, em vez de aspirar aos dons mais altos e comprometer-se com este outro “caminho muito superior” que é o da caridade (1Cor 12,31; 13,1ss)
h) A instabilidade e a volubilidade de uma fé que não se acha solidamente apoiada no Evangelho (Ef 4,14) e que , por isso, se vê abalada por certas correntes espirituais que não nascem da pureza evangélica.

2. Sinais da maturidade espiritual.

Destacamos os mais evidentes:
a) A convicção plena (1Ts 1,5) da existência de Deus e da sua providencia (Rom 4,21). Deste modo o homem se aprofunda em suas relações com Deus e toma progressivamente consciência do plano salvifico de Deus que nele se realiza.
b) A transformação e a renovação da mente e do coração, isto é, da personalidade em seu centro mais profundo (Rm 12,2) que permite um perfeito “discernimento do bem e do mal” (Hb 5,14; 1Cor 14,20); e mais, discernimento que mostre “qual é a vontade de Deus, o bom, o agradável a Ele, o perfeito” (Rm 12,2).
c) A docilidade ao Espírito Santo para discernir o que mais agrada ao Senhor e deste modo “frutificar em todas as boas obras e crescer no conhecimento de Deus”(Col 1,9ss), para caminhar no Espírito.
d) São cristãos maduros os que têm a capacidade espiritual de penetrar até o fundo no mistério de Cristo e de aceita-lo (1Cor 2,6s; Ef 1,9; Cl 1,27), abrindo-se à edificação da Igreja, que é o sacramento de Cristo (Ef 2,20 ss). Tudo isso significa ter capacidade para entrar em diálogo construtivocom os outros: diálogo com Deus, com os irmaõs e com o mundo.
e) Na maturidade cristã, “o homem inteiro” se compromete de forma radical e total com Deus e com a salvação do mundo. Com efeito, uma vida teologal madura faz o homem sair definitivamente da visão egocêntrica da vida; faz viver a ele a experiência de que não mais pertence a si mesmo, mas Àquele que o chamou à salvação e que pede a sua colaboração para a salvação do mundo. A força sobrenatural da graça e das virtudes teologais ordena de forma unitária o entendimento e a vontade, dirigindo-as para o centro de unidade mais alto, que é Deus.
f) Outro sinal da maturidade cristã é a “estabilidade da conversão” da mente e do coração. O compromisso do adulto não é como a promessa da criança, sujeita a caprichos, mas é uma tomada de posição de que não se volta atrás. É pacto serio com Deus, com o qual a pessoa adquire obrigações.
g) Sinal de maturidade cristã é a “integração” da própria personalidade em Cristo, isto é, o fato de que a vida inteira do cristão encontre estrutura mediante as próprias virtudes de Cristo (1Ts 5,23). A vida teologal, desenvolvida em todas as suas virtualidades, dá unidade dinâmica aos pensamentos, afetos, desejos e ações. O cristão adulto purificou-se das tendências afetivas que fazem de Cristo mais uma necessidade psicológica do que uma pessoa a quem ele se entrega livremente, e , como consequência, está disposto a manter sua decisão sejam quais forem as circunstancias da vida. O cristão adulto “está firme pela fé” (Rm 11,20), afastado do mal e orientado para Deus que o salva constantemente (Gal 2,20).
h) Finalmente, é também sinal de maturidade cristã o “compromisso com a Igreja e com o mundo”, isto é, a capacidade de superar os estreitos limites do próprio “eu” e de entrar em relação construtiva e criativa com os outros. Esta abertura aos outros, o cristão a realiza na caridade, nocompromisso eclesial e no esforço para salvar o mundo. A maturidade cristã não consiste em viver a graça de maneira abstrata e desencarnada, e sim no encontro entre a vida teologal e o compromisso temporal. Na Igreja e pela Igreja, o cristão adulto vive o compromisso da santidade e da comunhão da caridade, sabendo aceitar até os defeitos da própria Igreja e assumindo a tarefa de trabalhar para que a Igreja se aproxime cada vez mais de Cristo, seu modelo e sua cabeça (Fil 1,27; 1Ts 1,7s; Ef 4,13ss).
O cristão adulto dá expressão à sua vida nos atos externos do testemunho, do apostolado, da vida moral (Tg 1,22; 1Ts 1,3); não pode manter escondido, enterrado, silenciado o que experimentou (At 4,20); não pode deixar de repetir a palavra escutada (2Cor 4,13; 2Tm 4,2). É deste modo que cresce não apenas a vida de cada cristão, mas cresce também a vida da Igreja como totalidade.

Marina Melis
Diretora local

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