terça-feira, 27 de maio de 2014

Oferta suprema: a dor desejada pelo amor

Gostaria de dividir com vocês algumas reflexões sobre quatro realidades que chamo: “as quatro colunas da consagração à Imaculada segundo a espiritualidade kolbiana”. São elas: a vida interior, a obediência na fé, a caridade heróica e a oferta suprema.

Oferta suprema: a dor desejada pelo amor

“A vida do homem tem três etapas: a preparação para o trabalho, o trabalho, a dor. Quanto mais velozmente uma alma alcança a santidade, mais depressa chega à terceira etapa: a dor desejada pelo amor.” (Conferencia inédita, 28 de agosto de 1939)

A “dor desejada pelo amor” – quarta  coluna da consagração à Imaculada – comporta a disponibilidade em aceitar e amar as dores, os desgostos e os sofrimentos da vida, oferecendo-se a Deus pela salvação do mundo através de Maria.

Com a consagração a Maria esta etapa torna-se um momento e uma realidade concreta, preparada gradativamente pela graça, pela qual a dor encontra uma alma já pronta. Justamente dizia Padre Kolbe que, quanto maior é o amor, antes se chega a esta etapa, como chegou ele, que nunca negou nada à Imaculada. É pois uma etapa própria do espírito kolbiano, do profundo espírito missionário, da verdadeira consagração a Nossa Senhora.

A vocação particular de Padre Kolbe foi sem dúvida uma vocação à vida de vítima. Ele o sabia, o sentia, como nos revelam todas as suas palavras; e foi no espírito e nas condições de vítima que ele desenvolveu a sua própria missão sobre a terra. A visão das duas coroas, que clareou constantemente o horizonte da sua existência, é o primeiro sinal celeste; o seu final heróico é a mais estupenda confirmação.

Também a espiritualidade da Milícia da Imaculada tem as mesmas características: a “total oferta de si mesmo à Imaculada” não pode ser outra que uma generosa “oferta de vítima”. De resto esta realidade pertence à essência do cristianismo. O que é de fato, a vida cristã, se não a nossa participação na própria vida de Cristo Jesus? E que outra é a perfeição cristã, se não a perfeita imitação dele? Ele “se ofereceu como vítima sem mácula a Deus” (Heb 9, 14), pelo qual o Apóstolo assim convida os cristãos: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5, 1-2). De fato Cristo, entrando no mundo, disse ao Pai: “Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse: Eis que venho... ó Deus, para fazer a tua vontade. (...) Foi em virtude desta vontade de Deus que temos sido santificados uma vez para sempre, pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.” (Heb 10, 5-7.10)

Jesus quer dizer Salvador; este nome lhe foi dado no momento da sua circuncisão, segundo o costume da fé hebraica (cf. Lc 1,22-24), momento no qual derramou o próprio sangue, porque Ele deveria salvar o mundo  por meio da cruz. Com a cruz, ou seja com o martírio do seu corpo, da sua vontade e da sua alma, Jesus salvou todos os homens, e então senta à direita do Pai como “Rei imortal dos séculos”.

Este seu sacrifício se perpetua sobre a terra no Sacrifício Eucarístico, onde a oblação do Gólgota se renova cada dia de modo místico, mas real. Cristo, de fato, “veio como sumo sacerdote dos bens futuros... não com sangue de carneiros e de novilhos, mas com o próprio sangue entrou uma vez por todas no santuário, proporcionando-nos uma redenção eterna (...) Por uma só oblação ele realizou a perfeição definitiva daqueles que receberam a santificação (Heb 9,11.12; 10,14). Além disso, “porque vive para sempre, possui um sacerdócio eterno. É por isso que lhe é possível levar a termo a salvação daqueles que por ele vão a Deus, porque vive sempre para interceder em seu favor. Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha...” (Heb 7,24-26).
   
Jesus Cristo portanto é a Vítima redentora, única e eterna, e os cristãos devem conformar-se a Ele. Assim pensava São Paulo quando traçava a norma preliminar e fundamental da vida cristã: “Vos exorto, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual.” (Rm 12,1)

E São Pedro chama o povo dos cristãos “nação santa”, “sacerdócio régio” (1 Pe 2,9), porque, como o sacerdote oficialmente constituído tem a função de oferecer vítimas em sacrifícios de adoração, de agradecimento, de súplica e de reparação à Divindade, assim o cristão deve oferecer a Deus, para os mesmos fins, as “vítimas espirituais” das suas orações, mortificações, boas obras.

E unindo-se a Ele, pedra viva, também ele é empregado como pedra viva para a construção de um edifício espiritual, para um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo. (cf. 1 Pe 2,4-5)

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Padre Kolbe era constantemente alimentado desta verdade e sempre nos propósitos dos Exercícios espirituais encontramos escrito: “Estuda o Crucifixo. Torna-te semelhante a Ele... Cada dia, repetidamente, e nos momentos difíceis, fixa o teu olhar sobre o Crucifixo... e aprende a imitar Jesus nu, enquanto te encontrares em tais tribulações e escárnio.” (SK 966)

Pelo que se entende como oferta total à Imaculada, que constitui a essência da consagração no espírito de São Maximiliano Kolbe, requer a disposição de ânimo em aceitar da Imaculada tudo aquilo que Ela deseja mandar, para que mais rapidamente e eficazmente possível Ela possa “estender à humanidade inteira os frutos da redenção operada pelo seu Filho” (SK 1220; cf. SK 1329).

Quem se consagra totalmente a Maria neste espírito, não deve pedir nada de extraordinário: doenças, provas, dificuldades, martírio, etc; mas deve simplesmente deixar à Imaculada a plena liberdade de servir-se dela como instrumento, de fazer dela aquilo que Ela (a Imaculada) quer, aquilo que Ela deseja.

“O amor à Imaculada não consiste somente em um ato de consagração, também se recitado com grande fervor, mas em oferecer muitas privações e trabalhar para isso sem descanso. Tudo, porém, quando, como e quanto Ela mesma queira.” (SK 706)

Escreveu então São Maximiliano:

“'Precisamos estar preparados para sofrer muito pela Imaculada, porque não está escrito só': 'Ela te esmagará a cabeça', mas também 'e tu lhe morderás o calcanhar' (cf. Gen 3,15); portanto em nós, que somos instrumentos nas suas mãos imaculadas, a serpente infernal incidirá, embora tantas vezes por meio de homens muito bons que agem com ótima intenção. (...) Certamente quem trabalha pela Imaculada precisa sofrer muito. Também a Imaculada sofreu muito. O amor se nutre essencialmente de cruzes.” (SK 402)

Antes, estas provas e sofrimentos morais são o distintivo mais bonito e mais seguro de autenticidade da nossa consagração. E Padre Kolbe terminava sempre as suas cartas com este desejo:

“Que a Imaculada não poupe as cruzes à sua 'Milícia' e a nenhum de seus membros (...); só assim, de fato, se purificam as intenções, tanto que não se inscreva nela e nem nela trabalhe pela própria exibição ou por complacência interior, mas unicamente por puro amor.” (SK 51)

Por isso:

“Quanto maior é a nossa incapacidade e mais difícil de superar os obstáculos, tanto mais se demonstra que Ela sozinha faz tudo. Neste reconhecimento está a fonte da excepcional potencialidade do desenvolvimento do nosso complexo editorial.” (SK 137)

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Falando de dor vinda do amor, não falamos somente de dor física. Não creia alguém de ter chegado porque tem contínuas dores de cabeça; ou porque foi atingido por um tumor ou por qualquer outro mal.
Existe uma outra forma de dor, não menos pesada do que a dor física. É a dor moral, a dor psíquica, que não ataca os músculos ou as células, mas ataca a realidade mais profunda de nós mesmos: como as depressões, os cansaços, as incompreensões, as traições... E são dores muito fortes.

Mas nem ao menos esta forma compreende totalmente a terceira etapa da dor. Há ainda uma outra forma. Aquela experimentada por Cristo, por Maria, por Santa Teresa do Menino Jesus, pelo Beato Dom Calabria, pelo próprio Padre Kolbe e por tantos, tantos santos: o abandono completo por parte de todos e, sobretudo, o aparente abandono da parte de Deus.
É a noite da alma, o deserto do espírito, o túnel da morte. É a solidão mais extrema.
O Evangelho no-la apresenta: Jesus está completamente sozinho no Getsemani, no caminho do Calvário e na cruz, a ponto de gritar: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46) E assim Maria, aos pés da cruz, terá percebido a solidão do Filho, sentindo-se ela também sozinha e incompreendida.

E se retornamos a Padre Kolbe, não poderemos deixar de notar a sua solidão profunda. Sozinho e incompreendido antes, durante e depois da fundação de Niepokalanów. Sozinho no campo de extermínio, sozinho no momento da extrema decisão, sozinho na cela da morte. Sozinho, sempre sozinho, sem ninguém que lhe dirigisse uma palavra de conforto e de coragem. Rodeado de homens que se tornaram “feras”, que se divertiam em ver sofrer um sacerdote, em vê-lo zombado, humilhado. Mas ele estava preparado para esta terceira etapa, porque em toda a sua vida existia a dor, o trabalho, amor apaixonado por Deus, pelo homem e pela Imaculada.

Este terceiro aspecto da dor é certamente o mais profundo, que nada e ninguém pode consolar ou sustentar, enquanto se desenrola no espírito interior. Quem sofre moralmente pode ser compreendido e confortado. Mas a noite do espírito muito dificilmente é compreendida, se não por um anjo que só Deus  pode mandar.

À luz desta realidade compreendamos que no nosso caminho é necessário aprender uma arte: a arte de saber sofrer para entender quem sofre, de sofrermos nós primeiro para ajudar e amar os outros que sofrem, para sabermos viver o voto e o abandono e poder fazer o outro sentir que não está sozinho, mas que existe uma mão que pode segurar a sua.

Terceira etapa: completo em mim aquilo que falta à paixão de Cristo, afim de que a Igreja possa sempre caminhar na luz, na verdade e na humildade (cf. Col 1,24). A fim de que cada irmão possa encontrar-se com o Senhor que salvou o homem através do seu sofrimento. (cf. Padre L. Faccenda, Ora tocca a voi, Edizioni dell'Immacolata)

Concluamos esta parte comunicando alguns pensamentos extraídos de duas cartas que Padre Kolbe escreve à comunidade de Mugenzai-no-Sono (Cidade da Imaculada no Japão) em abril de 1933 e que ressumem muito bem tudo quanto ilustramos.

“Caros filhinhos, recordemo-nos que o amor vive e se nutre de sacrifícios. Agradeçamos a Imaculada pela paz interior, pelo êxtase de amor, todavia não esqueçamos que tudo isto, ainda que bom e bonito, não é de fato a essência do amor e o amor, pelo contrário o amor perfeito, pode existir também sem tudo isso. O vértice do amor é o estado no qual se encontra Jesus sobre a cruz quando disse: 'Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?' (Salmo 21, 2; Mt 27, 46; Mc 15,34). Sem sacrifício não existe amor. O sacrifício dos sentidos, sobretudo o da visão, particularmente quando se sai do convento e se vai em meio aos seculares, o sacrifício do paladar, da audição e etc.. Mas, além de tudo, o sacrifício da razão e da vontade na santa Obediência. Quando o amor a Ela, à bondade de Deus nela, ao amor do Coração divino que é personificado nela, quando tal amor nos tiver agarrado e compenetrado, então os sacrifícios se  tornarão uma necessidade para a nossa alma. A alma desejará apresentar constantemente demonstrações sempre novas, sempre mais profundas de amor, e tal demonstrações não mais que os sacrifícios. Desejo, portanto, a todos vós e também a mim mesmo o maior número de sacrifícios.” (SK 504)

“Caríssimos filhinhos, nas dificuldades, nas trevas, nas fraquezas, nos desencorajamentos lembremo-nos que o paraíso... o paraíso... está se aproximando. Cada dia que passa é um dia inteiro a menos de espera. Coragem, portanto! Ela nos aguarda lá em cima para nos apertar ao seu Coração.
Além disso, não dê ouvidos ao diabo, que a qualquer momento vos quer fazer crer que o paraíso existe, mas não para vós, porque, também se tivésseis cometido todos os pecados possíveis e imagináveis, um só ato de amor perfeito pode purificar tudo ao ponto tal que não permaneça em nós nem ao menos uma sombra. Caríssimos filhinhos, como desejaria dizer-vos, repetir-vos quanto é boa a Imaculada, para poder afastar para sempre dos vossos pequenos corações a tristeza, o abatimento interior e o desencorajamento. Só a invocação 'Maria', talvez com ânimo imerso nas sombras, na aridez e por fim na desgraça do pecado, que eco produz no Seu Coração que tanto nos ama! E quanto mais a alma é infeliz, arruinada nas culpas, tanto mais este Refúgio para nós pobres pecadores a circunda de amorosa e solícita proteção. Mas não vos afligíeis inteiramente se não sentires tal amor. Se quereis amar, isto já é um sinal seguro que estais amando; mas se trata somente de um amor que procede da vontade. Também o sentimento exterior é fruto da graça, mas nem  sempre ele segue imediatamente a vontade. Vos fará entender, meus queridos, um pensamento, quase uma intrigante nostalgia, uma súplica, um lamento... 'Quem sabe se a Imaculada me ama ainda?'. Filhinhos amadíssimos! O digo a todos e a cada um em particular no Seu nome, notem bem, no Seu nome: Ela ama cada um de vós, vos ama demais e em cada momento sem qualquer exceção. Isto, caríssimos filhinhos, o repito no Seu nome.” (SK 509)

“Tudo posso naquele que me dá força (Fl 4, 13) através da Imaculada”, repetia frequentemente Padre Kolbe (SK 975). Façamos nossa esta sua bela invocação, confortados pela certeza de São Paulo: “Quando me sinto fraco, então é que sou forte.” (2 Cor 12,10)

Padre Faccenda
Fundador do Instituto



Fonte: FACCENDA, Luigi M. Era Mariana: Fondamenti biblici, teologici, storici e spirituali della consacrazione all'Immacolata. Quarta edizione 1995. Edizioni dell'Immacolata. Bologna. Italia.


Ouça e participe do programa Encontro com Maria, a partir das 14h, todas as quartas, na Rádio Imaculada Conceição 1490 AM: http://www.miliciadaimaculada.org.br/ver3/radiopop.asp?v=grandesp