segunda-feira, 29 de abril de 2013

Impulsos reformadores na decadência dos séculos X e XI

Catarina de Sena (1347-1380)
São séculos em que coexistem decadência e reforma. A Igreja, inclusive aquela de Roma, se encontra nas mãos dos leigos,cujas orientações e opções estão bem longe de ser espirituais. A ambição dos grandes, a incontinência e a ignorância do clero aumentam e agravam a corrupção. Portanto, os clérigos, são osque tem maior necessidade de reforma espiritual.Neste período os livros de oração dos leigos contem formulas de tonalidade bíblica, que lhes permitem permanecer em contato com a Sagrada Escritura.  Florescem as orações à Virgem e aumentam as festas marianas.
Entre os monges, se formam uma rede de abadias submetidas à mesma observância.  A oração se reorganiza e se alimenta de teologia. Temos a experiência de São Romualdo, em Camáldula, que foge do mundo para praticar uma pobreza efetiva e fazer da austeridade uma regra de vida.
Assisti-se, aliás, ao nascimento da instituição dos irmãos conversos, prova de que os leigos estão interessados em viver o ideal dos religiosos.
A evangelização missionária, iniciada no séc. VII pelos monges beneditinos na Holanda e na Alemanha,continua ampliando-se.
Os monges Cirilo e Metódio convertem o czar da Rússia, os Morávios e se estendem até a Bulgária e a Dalmácia.

1.Peregrinações, cruzadas e mística no século XII.
 
Neste século floresceu uma vida espiritual que se expressou em formas diversas. As peregrinações continuam: se trata de viajar na pobreza para encontrar melhor a Deus, para dar graças por um favor recebido, para renovar-se espiritualmente com a penitência física do caminho. O peregrino leva uma vida de oração ao longo da sua trajetória, acrescenta as vezes penitências voluntárias e estimula à caridade da acolhida os centros que o hospedam.
Ele quer ver Jerusalém e morrer nela. Tudo o que esteve em contato com Cristo o fascina e o atrai, até as relíquias que o Oriente lhe propicia incansavelmente.
Já na metade do século, a peregrinação adotará a nova forma da cruzada; é preciso libertar o sepulcro de Cristo que está nas mãos dos infiéis. O cruzado, cheio de entusiasmo, despoja-se de seus bens, deixa os seus e marcha para bem longe. Ele quer purificar-se no Jordão e ganhar Jerusalém. O empreendimento da cruzada, inspirada inicialmente por um desejo espiritual, irá aos poucos secularizando-se. Seus aspectos místicos são suplantados, no caso dos cavaleiros, por ambições de conquistas territoriais. Acontece também que os cruzados se tornam violentos contra os judeus e contra os cristãos do oriente.
Um dos frutos particulares da cruzada foi dar vida às ordens militares, que no principio eramterceiras ordens e depois ordens religiosas. Seus membros, hospitaleiros e defensores dos peregrinos, emitem votos religiosos.
As ordens religiosas, se tornam cada vez mais ambientes fecundos de vida cristã.
Bruno (1084) inicia uma forma de vida que pratica o heremitísmo absoluto.
Aumenta o número das monjas. Suas obras - pois também elas escrevem - permitem ver como era a oração das mulheres na Idade média. As místicas Hildegarda de Bingen, Isabel de Scöau, desempenham um papel profético e garantem com sua grande cultura e com seu bom-senso uma rica direção espiritual.
Bernardo de Claraval (1090- 1153), pensador contemplativo, cujo ensinamento expressa sua experiência pessoal, dá aos cistercienses uma espiritualidade particular. Bom conhecedor dos Padres, defensor da vida monástica e escritor de valor, quer que o “amor carnal” do homem se converta atraves da humildade.
A mediação da Virgem Maria ajudará a alma a elevar-se ao amo supremo. A influência exercida por Bernardo em sua ordem e em outras correntes espirituais será imensa.
No séc. XII voltamos a encontrar numerosas manifestações da devoção a Cristo e da piedade mariana por parte dos fiéis.
 
2.A vida apostólica no século XIII e a vida espiritual dos leigos.
 
O desejo de vida segundo o evangelho era excelente; só faltava harmonizar-se  com o sentido da Igreja. Pobreza mais próxima possível da de Cristo, simplicidade com o uso das coisas e doshomens nutrida de ardente amor a Cristo: esta é a síntese que faz São Francisco de Assis (1182-1226). Sua resposta ao chamado de Deus corresponde tão bem às exigências de sua época, que bem depressa os seus numerosos discípulos, constituirão uma ordem, a dos Menores, destinados a expandir-se de forma duradoura no seio do povo cristão.
Francisco devia resolvera tensão entre o espirito e a letra, o problema da inspiração pessoal a obediência à Igreja.
Sua vida foi uma síntese entre a adesão a Cristo crucificado e o serviço á Igreja. A árvore franciscana produzirá muitos frutos.
Os menores darão ao mundo o exemplo de humildade alegre e de pobreza; exemplo tão contagiante que dará vida não somente à ordem feminina das claríssas, como também a uma ordem terceira de leigos que viverão o espirito do Pobrezinho de Assis fora dos quadros monásticos.
Diferente, embora semelhante, é a ordem fundada por São Domingo (1170-1221). Os membros desta ordem são pregadores pobres, itinerantes, enviados pela Igreja para a salvação das almas, para combater as heresias e os vícios, para ensinar a regra da fé. Imitam a pobreza do Cristo que pregam. Os dominicanos serão eficientes diretores de almas e missionários que chegam até a Pérsia e a África, a Índia e a China.Um dos representantes deles é o grande Tomas de Aquino, que desenvolverá uma sua própria doutrina e unirá a vida ativa e  a vida contemplativa. Os irmãos pregadores formarão o povo de Deus com seus sermões, propagando a devoção à paixão e sobretudo ao rosário.
Os Carmelitas, cuja regra foi composta por Alberto de Jerusalém, veneram a SS.ma Virgem, e propagam o escapulário. Imitadores do profeta Elias, preferem sempre a contemplação na solidão.
Outras ordens, como a dos servos de Maria, a dos celestinos, dos mercedários, dos eremitas de Santo Agostinho etc., dão testemunho ulteriormente, com sua vigorosa expansão, da vitalidade da vida religiosa neste século.
Os leigos recebem ajuda em sua vida espiritual. Nasce para eles toda uma literatura, em que não faltam as observações em torno dos costumes da época.  A devoção a Maria e aos santos, se torna mais popular com o rosário.
 
2.A “devoção moderna” nos séculos XIV e XV.
 
Continuam nascendo fundações religiosas novas: olívetanos, jerônimos, ordens terceiras.
A Instituição do Jubileu (1300) da oportunidade para uma renovação espiritual. Festas novas – a Trindade, Corpus Christi, Visitação daVirgem Maria, – mobilizam a devoção do povo cristão, enquanto continua a expansão missionaria levada em frente pelos dominicanos e franciscanos. Os mosteiros se difundem sobretudo nas regiões germânicas.
Temos neste período escritos e revelações de grandes monjas , como Matilde de Magdeburgo, Gertrudes de Helfta, Matilde de Hackerborn; o florescimento destas personalidades espirituais femininas, constitui um fato novo na vida religiosa, diferente do que representa Catarina de Sena (1347-1380), dominicana da ordem terceira, que vive fora dos quadros comunitários. Impressionada com as necessidades da Igreja dividida pelo grande cisma, ela é mística e apostola que ensina o discernimento, o conhecimento de si mesmo e o amor de Deus inseparável do amor ao próximo.Vive para a Igreja e os seus ministros, em particular para o Papa.
No final do séc. XIV, vemos desenvolver-se nos Países Baixos um movimento que se difundirá na Alemanha e na França: a “devoção moderna”. O movimento compreende grupos pequenos que querem viver uma vida de pobreza e de oração interior alimentada nas fontes seguras da Tradição, cujos textos recopiam. Seus grandes autores,como Tomás de Kémpis, vivem e propagam uma espiritualidade pratica, afetiva, devota, em que desenvolvem com realismo o seu tato psicológico. Meditam e convidam a meditar sobrea vaidade das coisas humanas e sobre os julgamentos de Deus; contemplam a pessoa amada por Cristo, através de um método. A Imitação de Cristo é uma das obras mais representativas deste movimento.
 
3.As tentativas do humanismo e a piedade popular.
 
O humanismo (realidade polivalente, que abrange, desde a admiração pela antiguidade pagã, cujas virtudes deseja transmitir para o cristianismo, até o retorno às fontes bíblicas e patrísticas) é outro caminho pelo qual avançam espíritos animados de sincera reforma, em que se quer eliminar todo formalismo exterior, para assim poder voltar em profundidade ao Evangelho.
Erasmo (1467-1536), homem muito critico em relação ao passado recentee que influenciará de modo impressionante A Europa e em particular a Espanha, pensa que a Sagrada Escritura basta para nutrir a piedade cristã.
Esta espiritualidade é, porém, uma espiritualidade de elite,que abandona os fieis às suas crenças simples, às vezes misturadas de superstições. A Igreja constitucional é fortemente criticada pelos Iollardos e por Wiclif na Inglaterra, que a ela opõe o ideal de sacerdotes pobres.
Neste tempo nas almas cristãs se difunde um grande pessimismo.
A sensibilidade religiosa conserva a consciência do pecado: daí o êxito dos jubileus do perdão, que levarão ao abuso das indulgências; mas está também obcecada pela morte e animada por curiosidade malsã diante do satanismo. A Missa passa por numerosos abusos disciplinares, abusos que só serão remediados pelo Concilio de Trento. A imprensa multiplica as traduções da Bíblia em língua vulgar. A Missa continua sendo uma cerimonia hermética, incapaz de dar aos cristãos o sentido da comunidade.
A pregação prossegue mais próxima do povo, cuja fé viva corre o perigo de degenerar em superstição por sua devoção aos santos e às relíquias. Tudo impele para um individualismo espiritual muito acentuado. A Igreja tem necessidade de reforma e os cristãos se dão conta disso.
 
4.Luzes e sombras na Espanha do século XVI.
 
O século XVI é século muito rico, mas também muito tumultuado. Os pontificados de Júlio II (1503-1513) e de Leão X (1513-1521), não o orientam pelo caminho da verdadeira reforma. A formação do clero provoca tentativas admiráveis, porém esporádicas.
A Espanha desempenha um papel de primíssimo plano, levando a nível altíssimo a vida espiritual. Todo o País se apaixona pela vida interior e pela oração. Contemplativos e apostólicos, reformadores ou fundadores, homens ou mulheres, sacerdotes ou leigos, indivíduos ou grupos, todo o mundo manifesta uma vitalidade espiritual de rara intensidade. O gosto pela Sagrada Escritura alimenta a piedade. A comunhão frequente se intensifica ao longo deste século.O zelo missionário impele os religiosos à busca de novas terras, para onde levarão a espiritualidade cristã.
Na Espanha nasce Inácio de Loyola (1491-1556), que se formará na França e na Itália antes de se estabelecer em Roma. Fixa a sua experiência nos Exércicios Espirituais.  As Constituições da Companhia de Jesus, fundada por Inácio e aprovada pela Igreja no ano de 1540, organizam em torno da realidade da “missão” a vida dos religiosos apostólicos sujeitos ao Sumo Pontífice Romano, segundo uma formula nova e ousada, em que a contemplação é exercitada na ação. Por ocasião da morte de Inácio, os jesuítas já estavam atuando em toda a Europa, na Ásia, na África, e na América.  Se trata de uma nova interpretação da vida religiosa, onde o humano se integra no divino para o serviço total de Deus e dos homens.
Teresa de Ávila (1515-1582), reformadora do Carmelo, mulher de oração e de ação, vê na vida de oração, o meio idôneo para chegar à perfeição da caridade e à união com o Senhor. Suas fundações a levaram a comunicar sua própria experiência espiritual profunda em algumas obras em que a confidencia autobiográfica se cristaliza num conjunto doutrinal que abrange a contemplação e seus graus mais elevados. A experiência teresiana é a experiência de uma mulher contemplativa que quer ser filha da Igreja. Sua irradiação espiritual e sua autoridade doutrinal não deixarão nunca de crescer na Igreja.
Para João da Cruz (1542-1591), que começa a escrever quando Teresa já está quase para desaparecer, o problema essencial reside na busca de Deus pela via da interioridade, na necessária purificação, nas “noites do espirito”, na longa ascensão que chega à união contemplativa, onde a alma participa da vida trinitária. Artista e pensador, poeta e teólogo alimentado pela Sagrada Escritura, conhecedor das místicas do norte, desenvolveu suas obras num plano literário e num plano didático. Escreve para as almas já introduzidas na contemplação e enfatiza assim o itinerário espiritual, o caminho da interioridade que leva à união de amor.
A Espanha daquela época é fértil em santos e em autores espirituais profundos. Não pensava a mesma coisa a Inquisição, assustada com certos excessos dos iluminados, que fundamentavam toda a vida espiritual na iluminação interior, com desprezo as vezes dos Sacramentos e da Igreja. Colocada diante deste misticismo subjetivista, não hesitará a ser rigoroso nas formas mais diferentes, freando assim, o impulso místico e esgotando uma abundante produção espiritual. Mas uma coisa a Inquisição não poderá impedir: a grande importância atribuída à oração mental em suas varias formas, mostrando o caráter vital da experiência cristã.
 
5.As correntes espirituais da França no século XVII.
 
Na França foram se delineando novas correntes. As traduções da Bíblia ainda não se difundiram muito; não obstante o povo vive em ambiente cheio de imagens bíblicas, e os autores espirituais fazem leitura mais interiorizada da Escritura. O atrativo exercido pela vida religiosa é muito intenso. Os círculos religiosos leigos, as ordens e as congregações religiosas manifestam grande paixão pelos temas espirituais. O Carmelo, importado da Espanha, continua seu impulso místico. Santa Tereza, já canonizada, é traduzida.
Francisco de Sales (1567-1622) inspirado em sua experiência de missionário e de diretor de consciências,renova a vida interiordos cristãos que vivem no mundo sugerindo-lhes a verdadeira “devoção”, alimentada pela oração e pelos sacramentos, assim como pelas “pequenas virtudes”, que impregnam o seu comportamento. Escreve o Tratado do amor de Deus que ajuda o cristão a levar uma vida espiritual consciente. Funda a ordem da Visitação, tentando assim uma forma de vida religiosa em que a exigência interior substitui as mortificações regulares nas antigas ordens femininas.
Nesta épocadesenvolve-se também  o jansenismo , a obra do bispo Jansénio (1565-1638) , com uma piedade austera, e combinando o senso da grandeza de Deus com o rigor moral, e também com um conceito bastante pessimista da natureza humana. O preço deste movimento que se transformou na época em sectarismo obstinado, foi o abandono da pratica sacramental.
Mas o Jansenismo não mobilizou todas as energias do povo francês. A devoção à Eucaristia continuou expressando-se mediante a Adoração do SS.mo Sacramento e a comunhão. A devoção ao Sagrado coração, que, a partir da Idade Media, passa dos claustros para os ambientes seculares, adotará uma forma litúrgica graças aos esforços de João Eudes (1601-1680), que contribuiu para expansão de tal devoção.
Temos também as revelações do Sagrado coração àuma religiosa da Visitação, Margarida Maria Alacóque (+1690) que acentuarão o sentido da reparação.
No século XVIII, a Espanha ocupará então a vanguarda, suscitando um grande movimento de escravidão mariana.
 
Marina Melis
Diretora local