segunda-feira, 15 de abril de 2013

História da espiritualidade (Segunda parte)

1.A espiritualidade do ocidente cristão.
 
A espiritualidade que ensinaram os bispos do ocidente surge menos brilhante, porém , mais pratica; é uma espiritualidade sólida, nutrida de teologia. Nomeamos só alguns deles: Cipriano de Cartago (+258), retórico convertido. Ele trabalhou especialmente pela unidade da sua Igreja e da Igreja universal; e a sua aspiração foi de que estas duas unidades se realizassem na Eucaristia.
Mais tarde, e numa linha um pouco distinta, Ambrósio de Milão (339-397) desenvolve o sentido da virgindade concentrado no amor a Cristo. Ajuda o seu povo a rezar os salmos.
Seus compromissos administrativos lhe deixam pouco tempo para estudar, e por isso ele se inspira em Orígenes e em São Basílio, adaptando-os aos seus fiéis.
Mais restrita e mais específica é a ação de Jerônimo, nascido em Dálmacia (340- 420), grande tradutor e comentador da Bíblia, autor de um voluminoso epistolário, propagador entusiasta da vida monástica.
A vida de Agostinho de Hipóna (354-430) supera o espaço e o tempo por causa da influência que exerceu. Passou pelo maniqueísmo e outras filosofias antes de chegar a Cristo. Teólogo profundo, movido por sua própria miséria a se aabandonar confiadamente em Deus, expõe a seus leitores uma visão dinâmica da vida cristã, em que tudo se concentra na caridade que é Deus, Deus trindade. A caridade serve para superar a tentação. Também os pecados servem para quem ama a Deus, quando o homem reza com humildade , confiança, fidelidade. Agostinho não escreveu expressamente obras de espiritualidade, embora todos os trabalhos dele estejam cheios de espiritualidade, porque falam do amor de Deus, bem supremo, do amor de Cristo difundido concretamente em todos os membros de seu corpo, e porque evocam e oram ao Mestre interior que é o Espirito, o qual faz conhecer a verdade.Agostinho, legislador da vida monástica, na carta que dirige às monjas e que se converterá na Regra adotada por muitos grupos religiosos ao longo dos séculos, louva a caridade mutua, o espirito de pobreza, a humildade e a castidade. Une o ideal monástico à atividade sacerdotal, suave sem ser fraca e austera sem ser rígida.

2.A espiritualidade do oriente. A difusão da vida monástica.
 
João Crisóstomo (347-407), embora muito distantede Agostinho, expressara como ele sua própria espiritualidade, tanto numa vida totalmente dedicada à pregação, quanto em obras escritas. O período transcorrido dentro da vida monástica e vinte anos de atividade pastoral lhe servirão para convencer seus ouvintes do valor moral da oração e da graça, e para persuadi-los de que uma das formas mais realistas da caridade é a esmola e a distribuição dos próprios bens. Diretor de consciência de seu povo, fortemente influenciado por São Paulo, que comenta abundantemente, interessa-se bem de perto pelos diversos estados de vida cristã. Seu tratado “Sobre o sacerdócio” expressa o que é para ele o ideal do sacerdote, homem da Eucaristia e da Palavra de Deus. Lembra às pessoas casadas que devem tender à perfeição espiritual de seu estado, participando dos mistérios de Cristo, educando seus filhos na sabedoria e sendo apóstolos diante dos outros homens.João Crisóstomo, cujo nome significa “boca de ouro”, propôs e defendeu a virgindade cristã, mas recordou que todosdevem escutar a Sagrada Escritura com alma de pobre.
Ao longo do séc IV muitos outros bispos, como Cirilo de Jerusalém, educaram seus fieis em suas catequeses, mantendo-os na pureza da fé, apresentando concretamente a espiritualidade de seu estado e defendendo a fidelidade conjugal.
Na Mesopotâmia, o diácono Efrém(306-373), conhecido por seus hinos e sermões, lembra que a fé inclui o amor,e deve manifestar-se exteriormente. Fala muitas vezes às suas comunidades sobre a Virgem Maria,e contempla na virgindade uma antecipação do estado do Paraíso.
 
3.Os cristãos diante dos invasores do mundo romano.
 
O séc IV tão fecundo em muitos aspectos, é seguido no  Ocidente por uma época muito castigada. As obras espirituais deixam de ser numerosas: as personalidades espirituais se encontram diante de problema novos e difíceis que são provocados pelas migrações dos povos, qualificadas também como “invasões barbaras”.
Os séculos V e VI são a época dos grandes bispos, homens de ação que passaram de defensores da cidade a apóstolos dos bárbaros ,algumas vezes com perigo de vida.
Enquanto a Igreja romana salvaguarda a herança antiga, o monacato aumenta sua influência e se fortalece o impulso missionário. É um período que apresenta poucas obras primas de espiritualidade, a não serVidas de santos.
Um homem que vive neste tempo é São Bento (480-547), que no início foi asceta e anacoreta e depois reúne em doze mosteiros seus discípulos. Organizauma “escola de serviço do Senhor”, onde a comunidade delibera sob a autoridade do abade e pratica a obediência, o silêncio e a humildade, que é a síntese da ascese monástica. A oração pública e particular assinala o ritmo do mosteiro. A Regra, original pela estabilidade que prescreve e pelo equilíbrio, faz do trabalho o elemento da organização monástica. A sua regra pouco a pouco se impõe em todas as fundações a partir do séc VIII.
Papa Gregorio Magno (535-604). Foi o primeiro monge designado sumo pontífice. Defensor de Roma, sitiada pelos lombardos, amigo dos francos, envia monges beneditinos para a Inglaterra.
Suas cartas, que o mostram sobrecarregado de responsabilidades religiosas e civis, propõem a solução que Gregório encontrou para o problema da contemplação e ação: a “vida mista”, em que a contemplaçãodesemboca na ação, que é esforço ascético  e atividade desempenhada a serviço dos irmãos.
Gregório indica também as vias da contemplação.
 
4.O sentido da penitencia no século VII.
 
O séc VII é período de evangelização ilustrado por numerosos bispos, que as vezes fundaram mosteiros.
É também a épocaem que, se difundiu uma forma de vida que concedia grande espaço à confissão e a penitencia privada. A partir da penitencia monástica, de fato, a confissão esquematizada, com seus rígidos exames de consciência,assumirá mias importância na vida dos cristãos e tornará mais sensível a consciência dos pecadores, e levará a um grande esforço de mortificação exterior.
 
5.A época carolíngia.
O advento de Carlos Magno (742-814), unificador de uma Europa que seus filhos dividirão entre si, exerce uma indubitável influencia na espiritualidade de seu império.
Numa época em que o temporal e o espiritual aparecem estreitamente unidos, a autoridade deum príncipe cristão que convoca sínodos, dita leis, sustenta a produção teológica e organiza escolas, não pode deixar de levar a uma renovação que recebeu o nome de renascimento carolíngio. A legislação de Carlos Magno, que não á perfeita, é impregnada do espirito do Evangelho. Aos leigos são dedicados tratados de espiritualidade, que lhes recordam seus poderes, suas responsabilidades, seus deveres e as virtudes que devem praticar. Aconselha-se-lhesque leiam a Sagrada Escritura e que se preocupem com os pobres. Se procura ajuda-los a viver cristãmente, embora os programas de vida que lhe são apresentados correspondam a copias da vida monástica. Entre o clero abrem a preocupação com a vida em comum e com a animação da vida espiritual.
As vidas de santos, destinadas aos monges e redigidas nesta época, mostram interiorização da ascese:se insiste na luta entre vícios e virtudes,na oração mais do que na mortificação. O gosto pela sagrada Escritura é muito grande e procede paralelamente ao amor à liturgia. A piedade é alimentada pelas solenidades litúrgicas, em que se exalta Cristo Redentor e se honra Maria em sua virgindade e em sua assunção. A pesquisa teológica tende a levar à participação mais fervorosa na Eucaristia. Livros de oração que contem invocações, atos de contrição, de adoração e de petição baseados nos salmos, servem de ajuda aos leigos e ao clero.

6.Impulsos reformadores na decadência dos séculos X e XI.
 
São séculos, os séculos X e XI em que coexistem decadência e reforma. A Igreja, inclusive aquela de Roma, se encontra nas mãos dos leigos,cujas orientações e opções estão bem longe de ser espirituais. A ambição dos grandes, a simonía, a incontinência e a ignorância do clero aumentam e agravam a corrupção. Portanto, os clérigos, são os que tem maior necessidade de reforma espiritual. Deveriam conhecer e viver melhor as realidades divinas, pregar a palavra de Deus e viver com desprendimento, caridade e castidade.
Neste período os livros de oração dos leigos contem fórmulas de tonalidade bíblica, que lhes permitem permanecer em contato com a Sagrada Escritura.  Florescem as orações à Virgem e aumentam as festas marianas.
Entre os monges, se formam uma rede de abadias submetidas à mesma observância, e recebem a poderosa ajuda de abades enérgicos. A oração se reorganiza e se alimenta de teologia. Temos a experiência de São Romualdo, em Camáldula, que foge do mundo para praticar uma pobreza efetiva e fazer da austeridade uma regra de vida.
Assiste-se, aliás, ao nascimento da instituição dos irmãos conversos, prova de que os leigos estão interessados em viver o ideal dos religiosos.
A evangelização missionária, iniciada no séc VII pelos monges beneditinos na Holanda e na Alemanha,continua ampliando-se.
 
Marina Melis
Diretorla local