segunda-feira, 15 de abril de 2013

História da espiritualidade (Primeira parte)

Descreve e analisa a relação que o homem manteve no decorrer dos séculos, com o Transcendente, no caso cristão, com Deus.
Como desenvolveu-se esta historia durante 20 séculos de Cristianismo no Ocidente e no Oriente?

 
1.Na Igreja primitiva.
 
O anúncio do Evangelho, primeiramente de forma oral e depois por escrito, nos permite ver na pessoa de Jesus que age, ensina e se propõe como exemplo, toda uma espiritualidade.
A reflexão dos apóstolos e dos escritores do Novo Testamento se concentrou nesta pessoa e nesta mensagem histórica, isto é, no “fato” Jesus.
A pregaçaõ primitiva implica uma serie de exortações à conversão, à fé, à vida fraterna, ao amor entre as pessoas e com Deus.
Os Evangelhos sinóticos anunciam a Boa Nova do Reino de Deus já presente no meio dos homens, com as suas exigências; é uma Boa Nova marcada por sinais, milagres ou curas corporais e espirituais.
Com os Escritos de João, a espiritualidade se torna mais teológica.
João insiste no confronto entre o crente e o mundo, que o evangelista situa no contexto da luta entre a luz e as trevas.
Ele trata de convencer de que quem não ama ao irmão, não ama a Deus. A espiritualidade de João é sacramental aprofunda o mistério do Batismo e da Eucaristia. A atenção que ele dispensa a Maria, como São Lucas mostra o começo de uma espiritualidade mariana.
Nas cartas de São Paulo as exposições dogmáticas são acompanhadas ou intercaladas de conselhos espirituais.
A carta aos Hebreus apresenta, sob a forma de homilia, Jesus como o único sacerdote, enquanto a primeira carta de São Pedro lembra à aqueles que receberam o Batismo que eles constituem um povo de sacerdotes, que começa a integrar a construção do edifício do qual Cristo é a pedra angular.
A carta de São Tiago e outras exortações,revelam aos fieis o sentido da provação, o valor da pobreza, a necessidade da caridade. Tudo isso transmitido pela Igreja primitiva será a fonte da espiritualidade cristã.
 
2.As gerações pós-apostólicas. O martírio e a virgindade.
 
Entre os séculos I e II, temos uma serie de documentos breves e práticos que nos informam sobre as atitudes espirituais quetinham de assumir as gerações posteriores á era apostólica.
O caminho dos neo-batizados: caminho da vida oposto ao da morte. O discernimento espiritual colocado ao centro da vida cristã.
A instituição da hierarquia na comunidade exige a caridade e a submissão.  Os cristãos são convidados à leitura cristã do A.T.
A Eucaristia é a oração por excelência, onde o bispo é o centro e a garantia da unidade.
Nesta época o conflito entre o mundo pagão e os cristãos é inevitável: latente no principio, acaba explodindo no martírio.
As Atas dos mártires,lidas nas Assembleias litúrgicas,  aprofunda todos os motivos que inspiram as testemunhas a dar a própria vida em sacrifício.
A virgindade cristã, praticada por homens e mulheres, florece na Igreja desde o I século. Este dom se assemelha ao martírio quando é vivido de forma devida. É fonte de fecundidade espiritual, e é vivido na Igreja e para a Igreja.
As virgens cristãs, que vivem no mundo praticando boas obras adotarão sob o conselho de alguns bispos, o costume de viver em comum, dando origem assim ao que será a vida religiosa feminina.
Os outros cristãos, vivem no matrimonio. Eles, alimentados pela Eucaristia, são um povo novo.
 
3.A espiritualidade segundo os primeiros Padres da Igreja.
 
Eles através dos escritos inserem em profundidade o cristão na Igreja e no mundo.
Clemente de Alessandria (+215), traça o ideal do cristão, em que confluem o conhecimento das Escrituras e a abertura ao mundo em que o cristão deve dar testemunho.
Orígenes (c185-c.254), leitor apaixonado e comentador das Escrituras, amante de Jesus, desenvolve o sentido espiritual da Escritura e dos sentidos espirituais dos cristãos. Com Orígenes se fala do esforço de elaborar uma espiritualidade baseada na Escritura, que guia o cristão para Deus; o cristão passa da ascése à contemplação mística.
Nos Padres Capadocios, encontramos o maior representante que é Gregório de Nissa (335- 394). Para ele é necessário que os sentidos materiais morram, para que nasçam no homem os sentidos espirituais, e então o Verbo poderá unir-se a alma.
As suas obras descrevem a ascensão da alma e a sua união amorosa com Deus no matrimonio místico.
Gregório Nazianzeno (329-389), foi chamadoo “teólogo”. Poeta fino, bispo em varias sedes, deixou-nos uma obra infinita que abrange a teologia, a oração contemplativa, o estudo da sagrada Escritura. A teologia para ele é conhecimento experimental de Deus.
 
4.O Monaquismo.
 
século III contempla o desenvolvimento de um tipo novo de vida espiritual: o monaquismo, que ocupará pouco a pouco o lugar do martírio e da virgindade.
Terá uma pluralidade de formas: solitários, cenobitas...
A luta contra o demônio ocupa grande espaço desta espiritualidade e torna indispensável o exercício do discernimento, seguindo o exemplo de Santo Antão, o pai dos monges, que em sua solidão teve muitas vezes a oportunidade de preparar discípulos, como verdadeiro mestre.
 
5.A espiritualidade do ocidente cristão.
 
A espiritualidade que ensinaram os bispos do ocidente é mais pratica, é uma espiritualidade solida , baseada na teologia.
Alguns deles: Cipriano de Cartago (+258), que trabalhou sobretudo pela unidade da sua Igreja e da Igreja universal. Sua aspiraçãoé que esta unidade se realizasse na Eucaristia.
Ambrósio de Milão (339-397), desenvolve o sentido da virgindade concentrado no amor a Cristo. Ajuda ao seu povo a rezar os salmos . A sua liturgia ainda hoje é usada na diocese de Milão e é chamada liturgia ambrosiana.
Jerônimo (340-420), nascido na Dalmacia,foi um grande tradutor e comentador da Bíblia, e propagador da vida monástica.
Agostinho de Hipona (354-430), passou por várias filosofias antes de chegar à humildade de Cristo. Expõe uma visão dinâmica da vida cristã, em que tudo se concentra na caridade que é Deus, Deus Trindade.
Agostinho não escreveu obras de espiritualidade, mas todos os trabalhos dele estão cheios de espiritualidade, porque falam do amor de Deus, do amor de Cristo difundido concretamente em todos os membros do seu corpo. Ele foi também legislador da vida monástica e a sua Regra será adotada por muitos grupos religiosos ao longo dos séculos.
 
Marina Melis
Diretorla local