sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sede santos!

A verdadeira devoção a Nossa Senhora consiste em fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus é que busquemos a santidade. Portanto, a finalidade da devoção a Nossa Senhora é que tornemos santos como Ela é a plenitude da santidade: “Ave, cheia de graça”, e como seu Filho é fonte da santidade.

“Na linguagem bíblica, ‘graça’ significa dom especial, que segundo o Novo Testamento tem a sua fonte na vida trinitária do próprio Deus, de Deus que é amor. Fruto desse amor é a ‘eleição’, de que fala a Carta dos Efésios. Da parte de Deus, essa eleição é a eterna na vontade de salvar o homem mediante a participação de sua própria vida em Cristo: é a salvação na participação á vida sobrenatural. O efeito desse dom terno, dessa graça da eleição do homem por parte de Deus é um ‘germe de santidade’ ou uma fonte que jorra na alma como dom do próprio Deus, que através da graça vivifica e santifica os eleitos.” (Redemptoris Mater, n 8)

Se a devoção a Maria não nos leva a amar a santidade, não é autêntica.

A santidade, portanto, é a nossa vocação. É a vocação não somente dos religiosos, dos sacerdotes ou dos consagrados, mas de todos os leigos. De fato, foi a todos que Jesus disse: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.” (Mt 5,48) Deus entendia todos ao dizer na criação: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” (Gn 1,26) E São Paulo relembra: “A vontade de Deus é que vivam consagrados a ele.” (1Ts 4,3) E a Igreja repete isso amplamente no capitulo V da Lumen Gentium.

Se essa é a nossa vocação, é de se perguntar por que se fala assim tão pouco da santidade. Parece que exigimos pouco dos cristãos e acabamos nos tornando interpretes de uma limitação, de um achatamento. Basta que alguém não mate, não se prostitua, não roube abertamente, não dê grandes escândalos, para que, inclusive sacerdotes, digam: “É o que dá pra fazer”...

A santidade é bem diferente. Não é um “não fazer”, e sim um compromisso concreto, uma subida para conquistar a montanha. É se perguntar sempre “O que posso fazer mais?” Como São João diz no Apocalipse: “O santo continue a si santificar.” (Ap 22,11)

A santidade não consiste em fazer muitas orações, jejuns, sacrifícios e romarias, ter visões e assim por diante, mas em fazer a vontade de Deus. Portanto, perguntemo-nos qual é e como se expressa tal vontade.

Ela é, antes de tudo, fazer bem o nosso dever cotidiano. “É uma santidade mínima...”, poderá alguém objetar. Eu, porem, respondo: “tentei!” Você, jovem, tente fazer o bem de manhã até de noite, respeitando os outros, respeitando a sua namorada e a si mesmo... Você, pessoa consagrada, tente viver plenamente a vida de obediência, em comunhão com os superiores; viver a pobreza com desapego interior, viver a virgindade com alegria e doação constante. Você, mamãe, tente estabelecer diálogo com seus filhos, estar “presente” desde que são pequenos até quando ficarem grandes e você não puder fazer outra coisa senão rezar por eles.

É o exercício diário que constrói a santidade. É o amor extraordinário nas coisas ordinárias. É inútil ficar esperando as “grandes oportunidades”: se não há empenho em cada momento, num passo após o outro, não se chega á santidade, que é a plenitude do amor de Deus em nós.

Todos os momentos da vida são “adequados” para que decidamos começar a nossa caminhada. São Maximiliano Kolbe dizia: “Se alguém já estiver com um pé no inferno, poderá assim mesmo se tornar um grande santo, basta que comece a se corrigir, comece a confiar ilimitadamente a Imaculada e comece a ama-la de todo o coração.”

Maria é santa por excelência. Isto é, Ela é a criatura que mais se assemelha àquele que é santidade por essência.

Desde a concepção participou dessa santidade, porque Deus, em previsão dos méritos de Cristo, a criou sem pecado (cf. Redemptoris Mater, n 10). Entretanto, Ela mesma foi aumentando e conquistando sempre mais e diariamente a santidade, respondendo sempre “sim” ao Senhor. Como um riacho que, descendo do alto, recebe em seu caminhar a contribuição de outros riachos e se torna um rio, até chegar ao mar, assim Maria, dizendo o seu “sim”, dia após dia, acrescentou santidade à santidade, aproximando-se sempre mais de Deus.

Nós não podemos alcançar o grau de santidade de Maria, mas podemos seguir seu exemplo em nossa caminhada, com fadiga, sem duvida, mas com alegria e perseverança, peregrinos como Ela é peregrina e como é peregrina a Igreja que também é santa e busca a santidade (cf. Redemptoris Mater, n 6).

Qual é, porém, o segredo para sermos santos?

Jesus nos comparou a uma vinha cujo agricultor é o Pai (cf. Jo 15, 1-11). A videira é Jesus e nós somos os ramos. Se de fato estamos unidos à videira, também nós somos santos, porque somos a própria emanação da videira, de Jesus, que é santo. Como brotos, nascemos da sua paixão, da sua morte e da sua ressurreição.

Entretanto, podemos permanecer unidos à videira somente através do amor. De fato, somente o amor permite à “seiva” vivificar os ramos e assim produzir fruto.

Ninguém mais do que Maria está unida à videira. Ela, que acolheu plenamente a vontade do agricultor e gerou não somente a videira mais também todos os ramos, isto é, todos nós. Maria, através de sua disponibilidade, fez com que o amor triunfasse. Permitiu que a graça de Deus a preenchesse totalmente (cf. Redemptoris Mater, n 9). E nem mesmo por um instante pensou em se separar da videira...

Nós, ás vezes, somos tentados a fazer isso; quando, por exemplo, queremos ou pensamos fazer as coisas sozinhos. E essa tendência, que pode acabar se transformando em mentalidade, é como um verme roedor que penetra cada vez mais, e faz com que comecemos a evitar a seiva que sobe da videira. Então, aos poucos, o nosso ramo seca e, quando o agricultor vier, o cortará, pois não serve mais para nada, ou pior, é empecilho para os outros ao impedir que a seiva corra... E aquele ramo que queria se tornar autossuficiente, que não queria estar “ligado” a ninguém, acabará por terra pisado e queimado.

Não permitamos que nenhum “verme roedor” entre em nós e nos separe da videira. A santidade de Maria, assim com a nossa, consiste exatamente no fato de ficar unida ao seu Deus até o fim, para sempre.

Padre Faccenda
Fundador do Instituto