quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pelas ruas de Harmeze


Harmeze - Polônia. Foto: Lourdes Crespan/MIPK
Meus pés caminham sem direção, como tantos outros durante o tempo de guerra. Meus olhos buscam atentamente sinais da presença de algo que um dia escutou falar e que jamais viu... lagos, pequenas casas, com suas flores e imagens de uma fé fortalecida e nunca saqueada. Pássaros que voam, vento forte que sopra, que empurra para outros olhares, para além das cores, dos sons, das imagens... distantes mas próximos, de uma realidade tão conhecida e ainda necessitada de ser aprofundada, adquirida, feito sua, feito minha. Pensamentos vagueiam dentro, sentimentos se misturam com as imagens que se transformam em fotografia.

Uma premissa para encontrar a trilha que tantos homens e mulheres, sedentos de liberdade, percorreram com os seus pés cansados, maltratados, humilhados... carregando corpos humanos, mortos, sem vidas, sem brilho, opacos... tantos rostos conhecidos e tantos outros irreconhecíveis... Meus pés perseguem as estradas rumo ao campo de concentração de Birkenau, um lugar imenso, vazio, que grita um silêncio que ressoa e penetra no mais íntimo de minhas entranhas, no mais profundo do meu ser. Um grito distorcido, que ainda não consigo decifrar completamente, tantas vozes ao mesmo tempo, tantas palavras com vários significados, gestos de solidariedade mas também de violência, de injustiça, de morte, mas também de vida e ressurreição.

Tocando aquele chão, sigo em frente, tentando registrar todos os ângulos encontrados e contemplados com a minha visão tão limitada das coisas e situações. Meus olhos se maravilham com a manifestação da natureza, que nasce diariamente naquela mesma estrada percorrida por pés desconhecidos e ao mesmo tempo tão familiares. É outono, as árvores começam a perder as suas folhas, estas meio avermelhadas se mesclam com a terra pisada e sofrida da Polônia.

Como tantos outros seres humanos, carrego comigo a minha história... e uma pequena bolsa, com alguns pertences. Os prisioneiros de Auschwitz II também carregavam consigo suas malas, grandes ou pequenas, repletas de objetos que poderiam ser úteis para um nova vida. De fato, eles não sabiam para onde estavam indo: o trem corre sobre o trilho, a fumaça se espalha pelas nuvens, no escuro dos vagões falta ar... olhos se encontram refletindo os mesmos sentimentos: medo, incertezas, angústias... Tinham sido enganados! Meus pés alcançam Birkenau, aquela terra cinzenta e silenciosa onde foram assassinados cerca de um milhão de hebreus, 75 mil poloneses, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra. Tudo começou em 1942.


Missionária Lourdes Crespan
Jornalista


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