sexta-feira, 6 de março de 2015

O Getsêmani

Nesta noite acontece algo que tem o sabor
de infinito:
seja nos gestos que Cristo realizou ou está para realizar, seja no discurso que está para pronunciar, seja nas expressões tão profunda e intensas dos apóstolos que Ele ama de modo especial:
“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13.1).

O coração dos apóstolos, o nosso próprio coração, percebe esse abismo de Amor, ao qual gostaria de corresponder com uma vida agradecida e grata, pois é sempre verdadeiro que “Amor com amor se paga”. Todavia, nós sabemos muito bem, após a ceia realizada com Jesus, começa a hora das trevas, inicia a manifestação cruenta da Redenção: O Getsêmani, a traição de Judas, a condenação por parte de Pilatos, a subida ao calvário, os membros pregados na cruz, o ápice das dores e, depois, a morte.

Fica aqui

Aquele que se fecha ao místico momento do cenáculo, jamais será um cristão integral, jamais poderá saborear o mistério da Redenção, nunca poderá sondar a profundidade do Evangelho. Da ceia com Cristo é preciso ir ao Getsêmani e nele entrar, como preparação para o calvário e a cruz.

Georges Bernanos, escritor convertido, faz uma afirmação muito densa de significado, verdadeiro eco do profundo mistério cristão: “Quem entra uma vez no Getsêmani, jamais poderá sair dele, porque Jesus saiu dali historicamente, mas continua ainda, através de seus membros, através de seu amor imperecível e daqueles que mais intimamente o amam, a permanecer no Getsêmani”.

Quem entra no Getsêmani não pode sair dele. É ai que se manifesta o verdadeiro amor; é ai que se transpira sangue sob o peso dos pecados; é ai que acontece a purificação mais perfeita, é ai que se tira qualquer resíduo de lama e de sujeira, para se elevar, juntamente com Cristo, e lavar todos os irmãos com a oferta de toda a própria vida. Bernanos, expressando a perfeita alegria de quem se converteu continua: “Não são as almas mais fortes que permanecem no Getsêmani, mais sim as almas mais generosas, mais simples, mais entusiastas, aquelas que querem dar tudo”.

De fato, entram com Jesus, no Getsêmani, os três discípulos mais amados: Pedro, Tiago, e João. Deveriam vigiar com Ele, forçar a própria fraqueza, mas são tomados pelo sono por três vezes: os mais fortes se tornam os mais fracos, esquecendo-se de Jesus que sofre e seu sangue.

Contudo, restam as mulheres.

Elas superam o racional e entenderam que, exatamente além do racional, há o amor: e abraçar o amor.
Não importa se o evangelho não o diz, mas certamente também Maria estava lá com as outras mulheres, enquanto os apóstolos dormiam vilmente. Sim, nem sempre são os grandesque permanecem no Getsêmani, mas os simples, os fracos, os que amam de verdade. Como Bernadete, como Catarina de Labouré; como Domingos Sávio; como o Padre Damião, o apostolo dos leprosos, como o Padre Kolbe, o mártir da caridade; como Maria Goretti, como Madre Tereza de Calcutá e muitos outros.

O que tu queres

Para permanecer no Getsêmani não devo pedir provas extraordinárias. Ele é livre para me enviar aquilo que quiser: pequenas dores ou o martírio sobre-humano. Ele sabe que eu sou a fraqueza em pessoa e sabe que chegará o momento do meu grito: “Afasta de mim este cálice” (Mc 14,36); mas sabe que nele terei a força que Ele teve para repetir com fé: “Entretanto, não o quero, mas o que tu queres!”. E me levantarei com ele,dizendo: “Vamos!” (Mc 14,42).

E, enquanto o meu espírito permanecer no Getsêmani, o amor subirá e saberá enfrentar lutas e humilhações, dores atrozes e sofrimentos desumanos. Com a cruz nas costas sofrerei o ódio da multidão, a ingratidão mais amarga, as quedas e depois novas quedas, até meu corpo ficar estendido e pregado na cruz.

E, enquanto, com a voz agonizante, me dirigir ao Pai, com o tom da suplica mais amarga: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?” (Mc 15,34), o espírito ainda estará lá no Getsêmani, saboreando a visão do anjo que vem me confortar (cf Lc 22,43).

Por isso, Getsêmani, calvário e crucificação serão um único respiro da Redenção.

Somente no Calvário posso realizar a vocação de cristão, porque onde a cruz toca, ela fecunda, dá verdadeira vida, faz o amor crescer; tira a soberba da palavra, purifica do orgulho e da presunção, elimina o amor próprio, a segurança em nós mesmos, e por isso sei escutar o grito de Cristo crucificado e fazê-lo meu “Tenho sede” (Jo 19,28), extinguindo esta sua sede, dando-lhe almas e amor.

Com a cruz nas costas e o espírito no Getsêmani, poderei rodar o mundo e, à minha passagem, não deixarei a aridez soberba do meu passo, da minha palavra ociosa, mas deixarei a vida que gera vida. Levarei até Ele outros irmãos, que saberão permanecer no Getsêmani com Ele.

Assim, é coisa muito importante que eu permaneça no Getsêmani cantando, mas sofrendo; amando, mas gerando na dor; fixando o olhar cada vez mais longe, mas dando a vida com confiança e com esperança.
Assim, somente assim, o mistério pascal, o mistério da dor e do amor, dirá ao mundo a palavra de alegria e de salvação, porque Cristo ressuscitou porque eu estou com Ele no Getsêmani e na cruz, neutralizando o pecado e a morte de muitos irmãos.

Padre Faccenda
Fundador do Instituto